sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As vozes

Eleanor Longden palestrou para a TED sobre sua experiência com a escuta de vozes, o diagnóstico de esquizofrenia, os tratamentos psiquiatricos agressivos, e depois com o apoio de pessoas próximas e profissionais que acreditaram em sua recuperação. Ela aprendeu a lidar e conviver com as "vozes dentro da cabeça", recuperando seu "eu" e retomando seus planos pessoais, como a conclusão da universidade, o trabalho na área de saúde mental, a escrita de vários artigos e livros, e a participação no movimento internacional de escutadores de vozes. A maior lição que tiramos de seu depoimento é a de que o atendimento psiquiátrico e/ou psicológico mal encaminhado, ou seja, sem uma escuta autêntica e com uma fixação em categorias de doenças, pode acabar por piorar muito a condição do paciente. Por outro lado, um atendimento profissional que vá na contramão dessa tendência de super-patologização e medicalização da vida pode ajudar muito aqueles que precisam, e pode ajudar a própria sociedade a se adaptar às múltiplas subjetividades que existem e que são muitas vezes escondidas, oprimidas e ignoradas. Como Eleonor disse: "o priquiatra não deveria perguntar qual é o problema com você mas o que está acontecendo com você".


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Arbre-main

À Asnière-sur-Seine, dans le chemin d'une nouvelle vie... Peut-on-être...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Imperfeição

Vinte dias com sintomas estranhos e muitos incômodos que já me fizeram desconfiar de gravidez, cisto no ovário e somatização... Dois dias de extremo estresse, dores e exaustão, procurando empatia atendimento em hospitais da minha cidade. Ah França, quem diria que você seria tão pertubadora em certas ocasiões... O sistema de saúde aqui está agonizando entre as exigências financeiras e as mentalidades preconceituosas de alguns profissionais, alguns que partem do princípio que você só quer abusar dos serviços. Mas, como em toda parte, há os que continuam fazendo uma medicina humana, humanista, humanizada. Enfim, não estou grávida, e provavelmente tive um cisto que estorou ou se foi, deixando a dor, que se vai aos poucos, e que me forçou a um repouso extremamente necessário.

***

Enquanto isso, voltei a uma das leituras para a fundamentação teórica da minha tese. Uma das mais importantes que fiz durante a faculdade, e agora, durante essa pesquisa que tem me feito perder cabelos e ganhar amigas (perco um pouco mais de cabelos e de ânimo a cada mulher que encontro submersa numa opressão ideológica resumida pela busca de filhos perfeitos, que não sofram, que não errem, que sejam seres humanos revolucionários, mesmo que para isso, elas se percam de si mesmas).

"Assim, há na existência humana um princípio de indeterminação, e essa indeterminação não existe apenas para nós, ela não provém de alguma imperfeição de nosso conhecimento, não se deve acreditar que um Deus poderia sondar os corações e os rins e delimitar aquilo que nos vem da natureza e aquilo que nos vem da liberdade. A existência é em si indeterminada por causa de sua estrutura fundamental, já que ela é a própria operação através da qual o que não tinha sentido adquire um sentido"
Merleau-Ponty, Filosofia da Percepção

domingo, 20 de julho de 2014

Desvendando um enigma

Terminei de ler o conto "Tell me a riddle" de Tillie Olsen, escritora dos anos 1970 que conheci recentemente. Depois de ler o conto, impactada, emendei no ensaio "Silences in literature", no mesmo livro. Depois de um domingo de serviços domésticos, de encarar a minha própria estranheza frente à vida doméstica, e de encarar a ambivalência do meu marido frente a essa estranheza, depois de perder tempo vendo "Desperates Housewives na tv" e ganhar alguns minutos de autoconsolo, tirei forças para ler. Resolvi me recolher a uma solidão menos enfadonha, e consegui ler Tillie. 

Há semanas tenho sentido aquela necessidade que conheço bem, de escrever. Um projeto que já não é mais novo, para o qual comprei uma caixa preta - simbólica e concreta - na qual venho juntando pedaços de histórias que alimentam aquilo que quero contar. Mas, mesmo nesses momentos de raiva e solidão não enfadonha, não consigo me permitir recomeçar o tal projeto. Algo me impede de depositar esperanças nele. Não tem a ver com publicação. Não. Tem a ver com uma necessidade fundamental, uma que conheço bem, desde sempre, acho. Uma que me leva simplesmente a escrever o que TENHO que escrever, com o compromisso de dentro e não de fora.  

E eu li Tillie Olsen. E uma faca de dois gumes, inescapável, me atingiu.

Não é por acaso que perco tempo reivindicando a minha casa como meu espaço doméstico por direito. É por não conseguir abrir mão dessa responsabilidade sem, por outro lado, reconhecer o preço que ela me cobra. O preço do tempo, do cansaço físico, mental. Do cansaço em não ter ao menos reconhecida a minha capacidade de me importar com a minha casa limpa, herdada do hábito de limpar banheiros, cozinha, quartos, louça, roupas, e evitar ao máximo fazer a comida, que minha mãe me ensinou. Então eu discuti ferozmente com meu marido, quando ele, que nunca tinha pego numa vassoura antes de se casar, quis rebater os meus métodos de limpeza conclamando os métodos da empregada da casa de sua mãe, mulher que ele viu trabalhar por mais de quinze anos. E a minha raiva, necessária para me tirar dessa zona de silenciamento criativo, da qual Olsen fala brilhantemente com uma tristeza implacável, juntou-se à raiva dessa mulher imaginária que eu vi meu marido testemunhar por longos anos a acariciar um chão limpo com um pano úmido uma a duas vezes por dia. "Quem é ele para dizer como o chão da minha casa deve ser limpo?!"

E assim, como Olsen reclama em seu ensaio, sobre o ato de criação próprio da maternidade: "é a distração, não a meditação, que se torna habitual; a interrupção, não a continuidade...", se eu não posso ao menos sustentar o hábito de decidir como limpar o chão da minha casa, ainda que eu tenha o companheiro mais disponível do mundo, ainda que ele tenha não só pego muitas vezes na vassoura como aprendido a cozinhar brilhantemente, fazendo que seja ainda mais fácil me esquivar dessa tarefa, sinto-me perdida. Eu ainda preciso me sentir "dona", responsável legítima, do mundo doméstico do meu mundo. Ainda que a responsabilidade de escrever o que TENHO que escrever se choque contra esse papel por causa da falta de tempo.

Desconstruir o silencio habitual da voz feminina (e mais ainda da voz materna) na literatura não é trabalho para uma escritora só. Me deixa! Uma escritora pode conseguir fugir do barulho externo e interno, atravessando o oceano, indo viver num mundo com outras linguagens, mas ela foi feita pra cuidar, e colocar o cuidado dos outros (incluindo a limpeza da casa) em primeiro lugar. Ela foi feita pelas circunstâncias de sua história pessoal e das heranças da história social à se importar com uma disputa ao título de "dona(o) da casa". Ela deve (e está a fazer) aprender como escrever suas tramas por entre a ambivalência dessa relação com o mundo doméstico... (E em algum momento, deverá dar conta das ambivalências do mundo literário, se não quiser passar pelo silêncio mortífero do qual Olsen falou limpidamente).

Finalmente, a presença

Estou relendo Merleau-Ponty e conhecendo Hans Gumbrecht. Finalmente, retorno à polêmica do "essencialismo", mas agora com o foco na presença. Como é bom sair um pouco dos "exageros da hermeneutica" e encontrar duas referências que me permitem pensar a maternidade não apenas em seus sentidos construídos mas sua corporeidade presente.


sábado, 7 de junho de 2014

Nunca fomos modernos, mas continuamos a tentar

Nunca fez tanto sentido pra mim essa afirmação de Latour, e agora, consigo associá-la diretamente com a famosa frase de Freud: "o homem não é senhor de sua própria casa". Freud sabia que o projeto da modernidade era inacessível, mas continuou tentando. A psicanálise assim o fez. A psicologia, de maneira geral, continuou tentando. Atualmente, quando escuto atentamente as gravações das minhas entrevistas e dos diários das mães que entrevistei para a pesquisa, essa nuance do saber-poder-controlar e a frustração que se segue, cada vez mais certa, com a idade da criança, é muito presente. Tenho encontrado discursos atravessados por esse projeto da modernidade, mais especificamente direcionado às mães. Elas consomem recomendações, normas, e tentam incorporá-las em seus hábitos, com aquela conhecida sensação de onipotência, que vira, de repente, como num choque, ou gradualmente, como uma melancolia que se instaura sorrateiramente, em culpabilização. O projeto da maternidade contemporânea nada mais é do que a incorporação de um projeto moderno - nunca plenamente realizado.

Eu fico triste, sinceramente, como mãe, mulher e psicológica, ao ver que a epistemologia da complexidade, do imprevisível, da diversidade, não tem encontrado muitos ouvidos e ecos entre as mães que tenho entrevistado. A sensação (a vontade) de tudo saber e tudo controlar é mais forte. É mais forte a vontade de dominar esse evento que, dizem, deve mudar definitivamente o curso da nossa história, que deve dar sentido à nossa existência como mulheres e como pessoas. A grande narrativa - que alguns chamariam de arquétipo - da maternidade é tão forte que captura as tentativas de escapatória. Mas, não acredito que essa captura seja permanente ou dominante. Há momentos lindos de tomada de consciência, aquela mesma que a psicanálise teve como princípio básico: não podemos controlar o destino, nem da vida que geramos. Podemos criar sentidos, mas eles podem não responder às perguntas que nossos filhos farão. E que bom, que façam! Que façam suas perguntas! Que tenham suas próprias dores para curar! Que tenham seus próprios erros, frustrações, desafios. E quem sabe, um dia, nos ajudem a desconstruir essa mania moderna de explicar as relações causais entre tudo o que vemos, sentimos e fazemos.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O corvo e os pombos: notas de um clichê

O corvo é solitário. Espreita os pombos, olhando por cima, na pose de rei. Sabe que está sendo observado. Vira-se para o outro lado, como se quisesse claramente ignorá-los. O corvo se camufla, esconde-se sem querer esconder-se. Voa ao largo bem na frente do bando ignorado. Bando de pombos medrosos, abrigando-se da chuva. O corvo não. Ele não teme água, ele nã teme um bando. Ele não teme nada. Ele é feio, ele é destemido, e não tem nada a perder.

Os poucos olhares que se movem na direção do corvo o fazem orgulhoso o bastante para não tremer diante de sua solidão. O corvo não sabe ser em bando, e não sabe ser completamente sozinho. Abriga-se acima do bando, ao mesmo tempo, ignorando-o. Mas, ali está, o discreto pássaro-rei observando aqueles que sofrem do medo da chuva. Ele observa o medo daqueles que tem algo a perder. Os pombos, esses coitados, não sabem o que fariam se perdessem sua família.

Da minha janela, vejo o clichê. Da minha vida melancólica pós-moderna, senti pena da cena. Pobres coitados, corvo e pombos que não conhecem o caminho do meio. 


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"O que você faz enquanto corre?"

Quatro dias sem correr. Uma noite de insônia no fim de semana e devo a ela esse intervalo no meu mais novo hábito. Mas, hoje, num dia ensolarado, depois de uma semana de chuva e de um dia intenso de entrevistas com as mães que participam da minha pesquisa, resolvi sair. Saí de um jeito diferente: sem relógio e com uma câmera digital. 

Comecei a correr, ouvindo o som dos pássaros, que nesse período ficam mais tempo no jardim, fazendo seus ninhos e todo o ritual de reprodução. Há diferentes espécies e eu gosto muito de observá-las. Na verdade, eu gosto mesmo é de senti-las. Sentir sua presença enquanto corro. É gostoso. É uma empatia. Sinto os pássaros vivos ao meu redor, e então sinto vontade de participar de seu coro. Mantenho o ritmo da minha respiração e dos meus passos na terra úmida. 

A brincadeira começou então quando percebi os primeiros anfitriões e parei uns segundos para fotografá-los. Corri mais um pouco. Parei mais um pouco. A ideia era manter o ritmo e a atenção fluante do chão para as raízes e arbustos, deles para os troncos e para as copas altas e nuas, procurando-os. Corvos, lindos e negros e solitários e escandalosos. Sempre no alto das árvores mais altas e mais peladas. E passarinhos simpáticos, nada tímidos, de uma espécie que eu já tinha visto e fotografado em Lisboa

Depois, inúmeras tentativas de captar um melro. Incrível como eles sentem a minha presença quando paro para observá-los. Eles fogem, rapidinho, e me deixam deslumbrada com sua simplicidade. Não sei exatamente porque amo os melros. Eles passam pertinho quando corro, mas quando paro, me percebem. 

Comecei então a me concentrar em meu próprio ritmo e aos sons que ele reproduz. Decidi correr mais. Corri com força, com mais velocidade. Senti o corpo querendo parar, mas eu tinha que continuar. Queria sentir como meu corpo pode se manter nessa continuidade, como ele pode perceber as repetições e pequenas variações de fora e de dentro. Tive que me esforçar para continuar. "Não vou aguentar!". É imediatamente a frase que se repete. 

"Quando foi mesmo que ouvi a mesma coisa? Quando foi que eu disse isso repetidamente diante de um caminho inevitável?" Meu parto. Lembrei das contrações no parto e aquele momento em que você já está no limite do seu corpo sem querer interromper o fluxo da natureza. Eu faço parte dessa natureza, e eu tenho que continuar. Sorri por dentro, pensando nessa reviravolta interna enquanto minha atenção permanecia flutuante, entre a paisagem e as pequenas variações que cantavam ao meu lado. Adorei ver os melros tão de perto, e lamentei não poder pegar a câmera e captá-los. Paradoxo.

"O que você faz enquanto corre?" "O que você faz enquanto mantém o esforço para manter a continuidade?" Essas questões me fizeram lembrar das vozes das mulheres que tenho entrevistado. "O que você faz enquanto está presente?" - é uma das perguntas mais importantes da minha pesquisa. Pergunta que não faço diretamente, mas que está no pano de fundo de tudo. 

Quando cuidam, elas estão criando um ritmo, acompanhando o ritmo de outra pessoa que não está nem aí pra elas... ou que ainda não se dá conta de quem elas são. São como pequenos melros. O que importa é a permanência, é o hábito de se encontrarem, nas trocas de fraldas, nas mamadas, no banho. Essas mulheres me contam seus diários, e geralmente começam a dizer "Não fizemos nada diferente. Foi a mesma rotina de sempre". Uma delas, com uma bebê recém-nascida, lembrou do filme "Feitiço do tempo" e do personagem que repete ao longo do filme o mesmo script. Quando cuidamos estamos então sob um feitiço que nos envolve na natureza, na capacidade da natureza em se reproduzir. Mas, estar presente e, de certa forma, enfeitiçada pelas necessidades dessa natureza exuberante, custa um esforço corporal que nos leva ao limite. "Eu não vou aguentar!" "Eu tenho que aguentar!". 

O que fazemos enquanto aguentamos? 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Do tempo e da geografia da produção científica

Estou adiando uma tarefa urgente e importante. 

Tenho que recontar com olhos novos o que vi e vivi ao fazer uma pesquisa de campo em mais de mil residências de idosos na Tijuca, Vila Isabel e adjacências - bairros com os quais tenho uma relação ambivalente desde pequenininha. A forma como nos recebiam (e não recebiam), a forma como as portarias serviam de blindagem ou amigável recepção... A forma como os familiares eram presentificados e/ou totalmente ausentes. A falta e a presença de recursos para se locomover, sorrir, abrir a porta e fechá-la atrás de nós. Uma experiências fantástica e banal. Um ano de crescimento profissional e pessoal. 

Ah 2007/2008... A virada na qual conheci Paris, pessoalmente! A virada em que fui terrivelmente sacaneada por uma dupla de mocinhos machistas tijucanos... em Paris. Quando conheci de frente o machismo refinado e me senti desamparada. Quando conheci Évora, e desisti do mestrado europeu. Quando senti saudades infinitas do meu amor e melhor amigo. 

Quando senti o gostinho de liberdade solitária e testemunhei a solidão forçada de gente que viveu tantas aventuras. Foi o tempo em que, ao refletir profundamente sobre essas realidades, fui impactada com a notícia da gravidez. E o projeto de estudar envelhecimento e cidadania no doutorado foi substituído pela maternagem, o mergulho profundo na maternidade. Que enfim, resultou num projeto de doutorado focado ainda no cuidado familiar. Falando de vida, falamos de nascer, crescer, e envelhecer. Mãos a obra, de novo!

O tempo da produção científica é assim. Às vezes, muito raramente, estudamos, pesquisamos, publicamos, em pouco tempo. Noutras, esperamos. Esperamos a longa pesquisa que conta com diferentes olhares, braços e métodos, terminar. Então, esperamos os primeiros resultados. A primeira e principal publicação. Esperamos a nossa vez, o nosso chamado. E com isso, um tempo de mudanças e permanências se desenrola. Fiquei feliz com a lembrança da minha participação e o convite para o próximo artigo. Minhas mãos contarão como foi e por que foi que fizemos a pesquisa de campo assim e assim e não assado. Gosto disso. Agora, estarei munida de mais ferramentas para analisar aquilo que passou... Por que selecionamos entrevistadoras e não entrevistadores? Por que excluímos da amostra as residências categorizadas como subnormais? Gênero, violência, classe social. 

Falando de pesquisa, falamos também de proximidades e distanciamentos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Das mães para a ciência: o que elas tem a dizer e o que eu tenho a fazer

Na semana passada tive que apresentar o andamento de meu projeto de tese, num seminário em Paris. Fui avisada meio em cima da hora de que deveria cumprir com essa tarefa e confesso que fiquei muito estressada. Não foi a primeira vez que me convocaram a explicar como gastei meu tempo (e meu financiamento) no primeiro ano de doutorado, mas não tem jeito. Cada vez que isso acontece, entro na maior tensão! Não é que eu não me sinta preparada, não. Eu tenho muita consciência de que ralei bastante. Principalmente porque o cansaço no corpo e na cabeça não me deixam esquecer. Mas, fazer uma retrospectiva é sempre um exercício que demanda concentração e paciência: um pouco de concentração sobre o que selecionar para contar e muita paciência comigo mesma porque tenho que encarar as minhas limitações em cumprir as metas que eu mesma me dei.

E eu fiz. Escrevi (em francês, o que ainda é um desafio maior pra mim) cerca de oito páginas contando, do início ao momento atual, tudo o que já pensei e projetei para essa pesquisa - aproveitei e contei também sobre as minhas publicações que saíram nesse período, um artigo científico e meu livro A Mãe e o tempo. Li para algumas pessoas e uma professora muito interessada, esse meu exercício de reavaliação, e recebi feedbacks positivos e algumas sugestões críticas. As sugestões tem a ver com as metas que não cumpri, que tem a ver com as dificuldades que tenho tido para começar efetivamente minha pesquisa de campo, que tem a ver com os objetivos desafiadores que desenvolvi. Aprofundei muito minhas reflexões teóricas, mas caminhei bem pouco no contato efetivo com as realidades das mães brasileiras.

Normalmente, quando alguém se aventura a pesquisar a maternidade, parte de algum contato institucional, como creches, escolas, consultórios obstétricos e pediátricos, enfim. Dessa forma, é mais fácil encontrar as "sujeitas de pesquisa", organizar encontros com elas, e botar a pesquisa na rua. Geralmente, as pessoas fazem o caminho inverso do que eu tenho tentado: conversam com os especialistas e profissionais da maternidade e depois escutam as vozes das mães. Mas, eu escolhi outra coisa, que me parece mais interessante, porém, muito mais difícil. Escolhi priorizar o contato direto com as minhas sujeitas de pesquisa, e evitar assim algum viés que seja produzido pela instituição ou profissional mediador/a. Claro que isso não me isenta de produzir os vieses que virão, mas me ajuda a produzir exatamente o que espero: narrativas maternas não ou pouco engajadas em determinadas organizações. Se as mães da minha pesquisa precisarem desabafar sobre algum mal estar gerado no contato com certos serviços, elas não precisarão temer como esses serviços receberão suas críticas - porque eu não tenho vínculo algum com eles e portanto não devo retorno algum para eles. Se elas quiserem elogiar seus obstetras, pediatras, psicólogas, enfim, também o farão de forma espontânea, porque o ponto de partida para nossa conversa não será a minha relação direta ou indireta com esses profissionais. É por isso, principalmente, que ainda não procurei nenhuma instituição de referência que fizesse as pontes entre eu, pesquisadora curiosa e com prazos curtos para cumprir, e minhas sujeitas de pesquisa, mulheres que assim como eu estão respondendo a diversas demandas do dia dia e nem sempre tem tempo e disponibilidade para me contar como anda a vida...

Então, ainda não consegui entrevistar efetivamente ninguém... Divulguei a pesquisa em redes sociais, e recebi contatos de algumas voluntárias. Mas, quase todas estão de alguma forma fora do perfil que decidi selecionar. Ou tem mais de uma criança ou a criança tem mais idade do que eu esperava...  

Minha ideia agora é mudar um pouco o perfil e a estratégia, mas mantendo o objetivo de fazer o contato direto com as mães, mediado apenas por esse mundo virtual e suas ferramentas (outro capítulo que terei que abordar na tese, para responder as críticas de professores mais acostumados as formas clássicas de pesquisar. A Internet abre tantas possibilidades e ao mesmo tempo ainda é pouco explorada pela academia). Vou começar então com uma pesquisa exploratória para conhecer melhor aquelas que já se ofereceram para participar mas que fogem ao perfil que eu tinha idealizado. Vou começar a formar grupos por país, ou seja, um grupo de mães que moram no Brasil, outro de mães que moram na Suécia, outro com as da França e outro com as que vivem em Portugal, e encontrá-los por videoconferências. E ao mesmo tempo, continuarei procurando as sujeitas que cabem certinho naquele perfil inicial, de ter apenas um/a filho/a de até um ano nascido/a num desses países. 

Aos grupos focais, seguirei com entrevistas focadas nas histórias de algumas dessas mães, especialmente sobre como chegaram no país onde vivem e como a maternidade aconteceu em suas vidas. E depois, farei a parte mais inovadora dessa metodologia incomum: os diários. Àquelas que tem bebês pequenos em casa, pedirei que gravem diários pessoais, no sossego (se possível) de seus lares, contando um pouco de suas rotinas, temporalidades e sentimentos.

Enfim, o meu percurso com essa pesquisa tem várias peculiaridades, que eu espero que sejam o meu forte e não a minha fragilidade. Tenho feito um esforço especial para manter a proximidade entre a Carolina mãe, blogueira, escritora, com a Carolina estudante e pesquisadora. Quero transpassar o muro duro e frio da academia, fazendo um diálogo rico entre vida real e vida reificada (como dizia uma professora de psicologia muito querida). Como tenho dito, sou uma caminhante do "entre".