sábado, 10 de novembro de 2012

Tigre, Tigre!


Há uns dias atrás conheci Lana Del Rey e sua voz grave e sedutora. Uma música tensa porém suave, se é que isso é possível. É difícil definir exatamente como Del Rey me fez sentir. É um tipo de atração que vem com um sofrimentozinho, como um gosto pela melancolia. Acho que sempre tive esse gosto. "A menina dos olhos tristes", disse-me uma vez minha ex-madrasta. Quando ela me conheceu, eu tinha apenas 7 anos.

E então, ontem vi o clipe de Ride. Um clipe meio sombrio, como todos os outros da cantora, mas que parece celebrar a liberdade. O tom melancólico da letra "Dying young and I'm playing hard / That's the way my father made his life an art / Drink all day and we talk 'til dark / That's the way the road doves do it, ride 'til dark" contrastando ou complementando as cenas de total euforia, numa estrada livre de trânsito, entre montanhas e desertos, devidamente motorizada no estilo Harley-Davidson... Cenas de invejar aos pobres mortais que vagam lentamente no trânsito dos centros urbanos, casa-trabalho-casa, seguidas de cenas repugnantes da bela cantora trocando de par, entre coroas feios e much more older than... anybody. 

O longo prelúdio à música anuncia uma busca incessante e admirável à verdadeira liberdade. E as cenas sugerem que essa é encontrada na estrada, nos encontros sexuais casuais, e na quebra de tabus - ou na quebra de um tabu específico, o do incensto. Paraí, estou indo muito longe! Não foi nada disso que ela quis dizer com "You can be my full time, daddy". E pode ser que eu seja influenciada pela curiosidade crescente sobre como se sente uma willing victim (expressão que acabei de aprender lendo as críticas ao livro Tiger, Tiger! de Margaux Fragoso). Mas, ouvi falar que Del Rey tem uma música chamada "Lolita". Não tenho certeza, não me aprofundei no assunto porque a outra artista tomou minha atenção.

Na livraria, sem nenhuma pretensão de comprar um livro, mas procurando títulos em francês que talvez existissem como iBook e que me ajudassem a mater um pouco do francês aprendido no Brasil, encontrei Tigre, Tigre! com uma capa bem interessante (bem mais do que a original que ostenta um tigre com asas no meio de um coração!). Vi que o livro fora escrito por uma mulher e traduzido por outra. Gostei. Tenho gostado de procurar livros de autoria feminina, principalmente romances. Consegui me sentar e ler as primeiras 20 páginas, revezando-me com meu marido para ler as estórias que nossa filha trazia eufórica. Li "O natal perfeito da Cinderela", em que a princesa prepara uma ceia para seus empregados e dispensa a ajuda do príncipe, contando apenas com a varinha mágica de sua fada madrinha - contei-a sem pressa, apesar da vontade de voltar ao meu livro. (Adoro ler livros para minha filha!) E então, voltando para o memoir de Fragoso (teria ela algum parentesco na América Latina?), fui pega pelas primeiras definições de "pedófilo". Hum... O prelúdio da história já vai direto ao assunto, coisa rara. É raro ler um relato de abuso sexual em um livro, e ainda mais do ponto de vista da vítima, e ainda mais tão direto.  

Fiquei com o título na memória, o que obviamente não foi difícil, e encontrei-o na APP Store quando cheguei em casa. E antes de prosseguir na leitura daquele francês do qual me faltava duas a cada sete palavras - algo que não comprometia muito a leitura, mas me livrara de entender alguns trechos mais explícitos - fui procurar críticas, comentários e afins na internet. A autora foi bastante criticada por ter escrito um livro tão catártico e pouco palatável. 

Percebi que as demais páginas poderiam me dar a chance de enfim compreender uma willing victim de abuso sexual na infância (ela tinha 7 anos de idade quando seu affair com o abusador começou e então se estendeu por 14 anos). Detesto o uso da palavra affair em casos como esse. Mas, ela foi usada num review que apresentou uma visão bem positiva da obra. E apesar de eu não ter passado da vigésima página fui mais influenciada pelas críticas negativas. A que me pareceu mais contundente foi a de Oliver James (talvez pela coincidência de ter lido ano passado "How to not f*** then up" e ter gostado bastante). Ele se manifestou como psicólogo ao lado de uma também vítima de abuso e de um crítico literário - aliás, o The Guardian foi bem aplicado nesse artigo, detonando com o livro nas três dimensões de potenciais leitores acima representados. Enfim, o psicólogo/escritor coloca uma questão interessante: por que ou para quem escrever um relato catártico desses? O argumento em defesa da leitura do livro afirma que ele tem o poder de nos fazer falar de um assunto tabu, o que pode ser verdade se os leitores não se sentirem tão deprimidos ou enojados com os detalhes sórdidos dos encontros dos protagonistas e preferirem nem comentar com ninguém sobre o que tem lido. Por enquanto, desisti da leitura. 

Mas, fiquei com a pergunta: será que preciso mesmo ir a fundo nessa curiosidade? Será que preciso sentir o desejo e o sofrimento dessa vítima para ser sua testemunha? Se eu perseguir o fantasma desse jeito, será que ele vai embora ou, ao contrário, nunca me deixará descansar na condição de testemunha? Suspeito que ele me quer como vítima e sempre vítima, e eu não sei se estou pronta para sofrer com Fragoso e perder o lugar que conquistei com muito esforço. Porque mulheres já tem motivações mil para se entregar 
à auto-comiseração, mas isso é o que não quero. Talvez, por isso a música de Del Rey seja tão atraente. A moça que sofre pelo namorado que só joga video games, bebe e a manda sair, ou a que promete esperar para sempre pelo blue jeans que parece James Dean são alegorias dessa mulher vítima que sente prazer nesse jogo de não-desejo.