sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Tristeza não é pecado

Ontem vaguei por cerca de três horas antes de enfim adormecer. Já estava cansada, mas entediada, em busca daquilo que me dá paixão, que me acende - a escrita, enfim. Os olhos pesam, mas a vontade de escrever qualquer coisa que faça sentido me move, quer dizer, mantém-me paralisada diante do computador, a procura de algo que inspire.

Volto-me para meu projeto em questão (não o acadêmico, mas o literário, mesmo sabendo que o acadêmico deve resultar também de um trabalho árduo de escrita) - o projeto II, a continuação. O segundo livro da série na qual tenho trabalhado. Quisera o acaso e a minha Biografia que, em um ano eu concluísse o projeto que mais me deu prazer, dor e satisfação: Quatro mulheres sobre a morte. Ainda não foi para nenhuma editora, ainda não foi inscrito em nenhum concurso, mas já navegou para algumas caixas de e-mails e já recebeu alguns feedbacks ao longo de sua criação. Agora, aguarda sua mais importante crítica - a mais profissional que já se dispôs a lê-lo. Veremos. Mas, ainda que ele não caia nas graças de uma crítica profissional neste momento, não vou descartá-lo, claro - ainda que minha auto-estima não seja lá das mais resistentes. A questão é que ele tem gerado a onda de um processo intenso, que não pode ser retido ou ignorado, e que não deve acabar até fechar um ciclo de, talvez, três. Tenho que escrever.

Vou abordar um tema duro nesse novo projeto. Como no primeiro livro, falo de mulheres, família, saúde e violência. Mas, agora, uma novidade, algo que nunca tinha premeditado em fazer mas que tomou forma enquanto lia Alice in Wonderland: falar do ponto de vista de uma criança, uma menina de oito anos. Porque infância não é o mundo da felicidade por excelência. Principalmente, para as meninas que (ainda) nascem numa sociedade em que se normatiza a mulher como depósito de desejos do Outro, do homem dominador - que evoluiu para dominar a terra e os animais, e claro, as mulheres, herdeiras da pecaminosa Eva. Não quero fazer uma crítica meio piegas à mulher-objeto. Espero que me entenda! Mas, ser um depósito do desejo do outro é ver crescer em si um prazer que é inventado, que é alheio à sua própria espontaneidade, que atropela o seu próprio espaço potencial - Salve Winnicott! Coisa de uma enorme violência.

Faço pesquisa para escrever. Leio muito, de tudo, antes de configurar um enredo, desde teóricos da psicologia até notinhas em jornais sensacionalistas. O importante é costurar sentidos em torno de um tema. E este novo projeto está tomando um tom empolgante com as leituras que tenho feito. Ontem, fiz a pesquisa que meus olhos puderam aguentar e consegui escolher o tema que faltava. Ao som de Zeca Baleiro e sua música "Tire o seu piercing do caminho que eu quero passar, quero passar com a minha dor (...)", delineei Lena, minha personagem mais nova. Pequena e lúcida, Lena. E comecei a esboçar as regras livro II. Algumas personagens foram encontradas. Conversamos, ontem. Foi bom, mas doloroso que só. Antes de adormecer, as palavras vinham com tanta agressividade que moviam meu corpo em minúsculos e tensos vai e vens. Os ombros, as pernas, o pescoço, a mandíbula acordaram doloridos. 

Deitei com o calor da empolgação e ao mesmo tempo a urgência da palavra. Preciso falar! Há tanta coisa que eu gostaria de dizer... Gostaria de cuspir na sua cara minha lucidez. Agora eu consigo respirar, erguer a cabeça para fora do buraco e colocar os pingos nos i's. Ai como eu queria acionar minha metralhadora de letras. Imaginei um post no blog, pensei em mandar algo para as Blogueiras Feministas. Mas, adormeci de repente.

Acordei, provavelmente depois de uns dez minutos (quanto deve durar um sonho em estado REM?), com a perna queimada. A cena era simples e compreensível: levava um garfo à boca, e antes que pudesse degustar o aperitivo que ardia em chamas, ele cai em minha perna. Acordo com um susto. Entendo perfeitamente a mensagem. Felicidade fast food não é o meu tema, e não vou cair na tentação da precipitação. Sim, eu quero dialogar, quero saber o que você pensa. Mas, há tempo para amadurecer a tristeza. 

A tristeza persistiu ainda no longo dia que só começou as onze da manhã. (A pausa para assistir "Força Ralf!" com minha filha foi fundamental!). E ainda me sinto mexida por tudo: leituras-biografia-notinhas-psicologia-gênero. Ai vida sofrida essa de escritora! (Será por isso que hoje deito ao som de Céu?)