quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Maternidade científica

Estou preparando um paper para uma disciplina em Évora. Ele está tomando muito mais do meu tempo e de minhas energias mentais do que eu gostaria! Lendo sobre a formação da saúde pública enquanto campo de atuação do Estado Francês no século XIX, detenho-me no Higienismo. O tal do Movimento Higienista me deixa oscilante, bipolar, entre a empolgação com o surgimento de uma "medicinal social" e a depressão com os discursos autoritários da saúde (que ainda estão por aí, assombrando pesquisas, políticas e o dia a dia da gente). Afinal, é difícil colocar num mesmo parágrafo "bem estar social" e "desigualdade social" se não forem como polos antagônicos. Mas, o estudo um pouco mais detido do Higienismo me mostra que o buraco é bem mais embaixo... O movimento que pregava o direito à saúde, que defendia melhores condições de vida e trabalho para os pobres, também foi base rígida para um Estado Social, muitas vezes discriminador e excludente (em especial para as mulheres).

Um incômodo com a pouca menção das desigualdades de gênero pelos textos lidos sobre o assunto me leva a este de autoria brasileira: "'Ser mãe é uma ciência': Mulheres, médicos e a construção da maternidade científica na década de 1920" (referência abaixo). Meu estado depressivo se prolonga, mas a autora dá um desfecho até que bem otimista ao artigo. Depois de demonstrar a reprodução de argumentos higienistas em revistas femininas - argumentos esses usados por médicos e reforçados por escritoras, que clamavam pela educação das mães para melhor educarem os pequenos cidadãos republicanos - ela enfatiza que as mulheres, inclusive as feministas da época, se apropriaram do Higienismo para melhorar sua posição social. Este foi um dos caminhos que as feministas traçaram para a conquista do direito ao voto e a educação - com fortes raízes na concepção essencialista da mulher!

Concluo por enquanto que é um exercício desafiador tentar se livrar da categorização mental de "bom" e "mau", e perceber que naquilo que desprezamos pode haver a ponta para a linha das mudanças que imaginamos. O Higienismo não é simplesmente a raiz histórica dos males da saúde pública contemporânea, nem é apenas a base de todo nosso modelo de Estado Social. É um pouco dos dois.

E mais uma vez, vou me munir de meu caleidoscópio...

Referência: FREIRE, Maria Martha de Luna. ‘Ser mãe é uma ciência’: mulheres, médicos e a construção da maternidade científica na década de 1920. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, supl., p.153-171, jun. 2008.