domingo, 2 de dezembro de 2012

Weather, women, diálogos e contradições

Tem um lugar aqui em Lisboa que é especial pra mim. Na verdade, ele é um misto de lugares, estímulos e paisagens que me toca profundamente. Seja ao sair da estação São Sebastião e atravessar a ruela de onde avisto as árvores do jardim ao lado de um castelinho muito simpático (aliás, será que ele também faz parte do meu Complexo preferido?) ou quando vou pela Avenida de Berna, cruzando a Praça de Espanha e passando pela confusão do trânsito, sempre me encanto ao entrar no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.  Sou realmente encantada com esse lugar: os sons, o visual, os cheiros - até os cheiros! - me emocionam. Hoje praticamente chorei de emoção ao entrar no Centro de Arte Moderna e dar de cara com a exposição de Gerard Byrne. Ela já está lá há um tempão, mas só hoje a descobri. Adoro o Louvre, ele tem lá seu valor histórico, patrimonial (e financeiro, claro), mas eu gosto mesmo é de estar entre as árvores do Calouste ou no abrigo de suas exposições...

E hoje, entre as fotografias de Byrne, logo no hall de entrada do CAM, uma que chamou minha atenção: retrato de uma cerca branca (dessas que circulam as casas das periferias pobres norte-americanas) diante da escuridão, de onde se revela apenas uma manchinha cinza no canto superior - aberta à imaginação do espectador - e se você olhar atentamente os olhos que se refletem no vidro da moldura, verá a sua própria face cercada pela singela cerquinha branca. Eu sou daquelas que tem um medo danado do desconhecido, que sempre tem calafrios diante da escuridão completa. Eu era uma criança medrosa, confesso. Medo do escuro, de cachorro, de bichos de toda espécie, de perder minha mãe, de dormir e não acordar... de ficar sem namorado a vida toda, de engravidar, parir e amamentar... Medos que desafiei e guardo num cantinho bem remoto... Pois, ao mesmo tempo, sempre amei alturas, a sensação do vento na cara, a vista livre de qualquer impedimento. Sempre detestei cercas, grades, redes na janela. Depois de ter filha, tive que aceitar o gradeado sobre quase todas as janelas dos apartamentos onde morei no Brasil, mas não no meu quarto. Odeio a ideia de acordar, abrir as cortinas e ver a paisagem entrecortada. Por isso, a fotografia da cerquinha me atraiu, e reparei que, apesar de sua brancura excepcional, ela era incompleta, não contornava todo o terreno, e aparentemente, não detinha a nada, a não ser a minha própria imagem refletida. Jogo interessante resultante da relação do público com o objeto de arte, que talvez não tenha sido previsto pelo artista - ou talvez tenha sido intuído, já que Byrne gosta de causar o diálogo entre o movimento e a imagem estática, tirando a gente da passividade diante da tela.

Depois de encantada com a tal fotografia, fui interagir com as três televisões que exibiam simultaneamente cenas de um mesmo filme do artista, 1984 and Beyond. O filme reapresenta uma mesa redonda produzida pela Playboy em 1963 com autores de ficção científica, e é composto dos diálogos dos homens da década de 1960 (todos brancos, engravatados e anglofônicos) sobre questões contemporâneas e o que previam para o futuro da humanidade. Os temas variavam das grandes especulações de fim do mundo, passando pela guerra fria, o comunismo, a conquista da lua, e o problema da super população (dizia-se 6 bilhões de pessoas no mundo até o ano 2000!), para as invenções tecnológicas (imagina, roupas descartáveis e um robo faz tudo em 2000!). Foi bem interessante acompanhar o debate e as diferentes ideias acerca do que viria, sem aquele determinismo ideológico (ah, o proletariado vai tomar o poder e a revolução vai varrer o capitalismo da terra, e suas variantes). E foi no momento mais descontraído da conversa, em que os falantes comentavam sobre o diálogo do carro-robo com o homem-a-sair-para-trabalhar que saquei a frase-insight. Era mais ou menos assim "e então ele vai conversando com seu carro sobre as notícias do dia, sobre política, tempo,  mulher (...)". Opa!  - sabe quando você usa a vírgula para colocar lado a lado coisas semelhantes ou dar noção de continuidade? Pois então, foi quando ouvi "weather, women" que atentei para o fato de não haver uma sombra de mulher entre os falantes do filme (a não ser a da mulher-objeto).


Como seria assistir a um grupo formado por gente diferente, mulheres, homens brancos, negros, de todo tipo de origem cultural, fazendo previsões e discutindo os grandes assuntos do mundo? Imagino que a mulher não seria apenas tema banal de prosa matinal...


Mas então, na outra sala de exibição, o filme Homme à Femmes, de 2004, que reconta a entrevista com Sartre para a revista Le Nouvel Observateur, em 1977. A conversa é sobre suas relações com as mulheres, principalmente Simone de Beauvoir. Nunca fui fã de Sartre, nem na faculdade de psicologia, porque ele sempre me pareceu essencialista demais, com postulados universalizantes, tipo "homens são assim, mulheres são assado". Claro, a gente tem que contextualizar o discurso, entender que o autor é datado, estava vivendo a década da revolução sexual, mas ainda num meio em que as mulheres intelectuais eram tratadas como "excepcionais" ou "mulher de intelectual". Beauvoir foi uma das mais destacadas de seu período, e ainda hoje é ícone feminista ou pelo menos porta de entrada para o feminismo para várias estudantes de psicologia. Mas eu nunca fui muito interessada no casal... A entrevista, porém, é interessante justamente porque é um pedacinho de História, uma ilustração mesmo do que já fora considerado revolucionário (e ainda é, para muita gente). No discurso de Sartre, além de toda justificativa filosófica para as relações poligâmicas, estampa-se um "amor pelas mulheres" caracterizado pela tutela, pelo sentimento de posse e superioridade. Ele chega a afirmar como machistas algumas de suas próprias declarações. Quando a jornalista lhe pergunta se sentia-se responsável por suas amantes, diz que sim, emocionalmente e financeiramente. Por que? Aí, ele divaga, se enrola com uma explicação sobre sentir-se parte de toda a vida da mulher, de sentir que ela era toda dele, mesmo que fossem só parceiros sexuais e tal... O que eu acho bem interessante, porque, qual intelectual revolucionário hoje em dia se atreveria a revelar assim sua quota de machismo diária?


A entrevista casou muito bem com o impacto causado pelas três telas e os homens engravatados de 1960. Sartre não era mais um homem de 60 quando concedeu a entrevista, porém, suas ideias tem raízes bem datadas. Para quem questiona o modelo monogâmico judeu-cristão-ocidental do casamento, sustentar relações de dominação sexista com as parceiras é algo contraditório. E é justamente isso que mais me intrigou em minha visita hoje ao CAM: é difícil perceber as contradições daquilo que amamos, daquilo que consideramos novo, diferente, transformador - e é angustiante lembrar que toda ideia aparentemente original tem raízes no passado que queremos superar.


O quanto podemos nos considerar revolucionários? Temos mesmo discursos diferentes? Trazemos alguma inovação? Alguma novidade? Ainda que a resposta seja sim, é possível se atentar para as raízes dos "novos ideais" que defendemos? Somos capazes de exercer uma auto-crítica, um balanço realmente sincero sobre o que propagamos por aí?


Eu confesso que tenho medo do desconhecido. Tenho medo do escuro, daquilo que não se revela de imediato - meu preconceito me diz que, na escuridão, ou não há nada de sólido para se ver ou existe algo perigoso a se esconder. E talvez, seja esse medo/preconceito o calcanhar de Aquiles de quem deseja dialogar com as diferenças e vencer os discursos dominantes.


Saí da exposição para suspirar profundamente longe dos guardas e demais espectadores. Andei pelo jardim, com o cheirinho de eucalipto no ar e a companhia de meu marido e minha filha... Quais serão os revolucionários da História quando ela tiver seus vinte anos?