segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Chá da tarde

E aí que o sol resolveu sair, e as nuvens pareciam tímidas diante da luz, depois de três dias cobertos de chuva e ventos fortes. E aí, que eu resolvi dar continuidade ao estudo no meu escritório off house, no Museu Calouste - mas, não pude, já que hoje é segunda feira (eu já sabia, mas tive a razão entorpecida pela luz da euforia). E aí, que a chuva resolveu voltar, bem na hora em que minha razão se recobrava e o vigia do Museu me explicava que hoje nada funcionaria ali. E aí que o primeiro refúgio que vislumbrei foi um shopping de luxo, que não gosto e que não tem qualquer condição para promover minha dedicação aos estudos. Mas, entrando, a contra gosto e quase chorando de decepção - já que minha tarde de trabalho off house ao sabor do chá de frutas silvestres da minha cafetaria preferida tinha ido pelos ares - percebo uma nova loja de chás e cafés que, infelizmente, não oferece um lugarzinho para você se sentar e apreciar alguns de seus produtos bem embalados para presente. E aí que, apesar de sua cara delivery de souvenirs, ela me faz lembrar de uma casa de chá perto da minha casa, na qual nunca tive tempo de entrar. Sorte que dentro do shopping, logo no primeiro andar, há uma entrada direta para a estação do metro, com o qual volto para a Alameda, torcendo para que a casa de chá esteja aberta. Afinal, segunda feira é dia de expediente normal para o comércio - com exceção para a livraria lindinha e cult que fica em frente ao Museu e que estava fechada pra inventário. Dia de sorte! Cinco minutos no metro, e aí, saio na Alameda, debaixo de um céu azul como se não houvesse chovido. Claro que a distância para a casa de chá não era assim tão curta como eu tinha imaginado ao lembrá-la no shopping. Caminho cerca de dois quarteirões, suando debaixo do casacão super preparado para a ventania. E aí, que encontro a bela casa, chamada Empório do Chá, na Avenida Paris, e peço - em sua homenagem e contando os dias para chegar em solos franceses - uma xícara de Montagne D'Or. Delícia.

E aí, lembro-me da tarde deliciosa de domingo no Museu do Oriente, onde ocorre uma exposição sobre O Chá, até dia 3 de março, se não me engano. Lembro da delicadeza das louças e da criatividade dos bules de barro japoneses e chineses. Impressiona-me saber que, afinal, O Chá só chegou na Europa no século XVI, e só passou a ser cultivado e comercializado aqui em meados do XVIII. Os portugueses se gabam da descoberta e atribuem aos ingleses e holandeses o sucesso da democratização do hábito. E aí que fiquei intrigada com uma das estratégias inglesas, voluntária ou não, para divulgar a apreciação do chá: açúcar. E fico decepcionada, já que, como uma boa ocidental contemporânea que estuda saúde pública (é quase viciada em chocolate, mas bebe café puro puríssimo), acho açúcar o fim do mundo. Assim como achei o fim do mundo aquela lojinha de souvenirs que só vende chás, cafés e adereços como se fossem objetos de consumo triviais. Como se não precisassem de um tempo, de um assento e uma musiquinha ambiente de bom gosto para serem apreciados. Como se fossem apenas a lembrancinha de viagem perfeita ou o pretexto para se gastar dinheiro quando se tem de sobra. Ah tenha dó!

E aí que lembro da exposição novamente. O Chá tem um sentido especial, um lugar privilegiado na cultura oriental. Em rituais religiosos, nas festas de ano novo... E lembro então da exposição permanente do Museu do Oriente, onde se agregam representações e objetos dos ritos de diferentes religiões dos países orientais, com os quais os portugueses fizeram negócios da china. Com um pano de fundo escuro, salas amplas porém pretas do chão ao teto, entramos no mistério que certamente encobriu o sentimento dos navegadores portugueses. E aí que relembrar esse encontro me faz pensar no quanto é antigo esse contato entre Ocidente e Oriente, entre o que eu conheço bem, desde pequenininha, e o que é extremamente estranho - meu deus, como podem existir culturas tão diferentes no mundo! E aí, que lembro mais uma vez de mais um pedacinho da exposição, especificamente, de um altar de um culto indiano, com três divindades femininas bem adornadas e acompanhadas por um Ganesh e uma mesa de oferendas, com animais sacrificados, flores, bijouterias, tambores - e um São Francisco Xavier. Perfeito retrato do sincronismo que afirmamos, como bons brasileiros, ser a marca de nosso país. Como pode haver tanta diversidade cultural nesse mundão de meu deus! E aí que eu, em meu recolhimento vespertino sou despertada por uma tomada de consciência cósmica sobre as diferenças e diálogos - e sei lá porquê ainda chamamos oriente de Oriente e ocidente de Ocidente.

E aí que meu chá está esfriando, mas é tão saboroso que devo levar um pacotinho de luxo como recordação dessa bela cidade onde me sinto tão cosmopolita (e eu juro pra você, de pés juntos, que estou escutando Elis Regina dizendo-se caipira pira pora nossa Senhora de Aparecida, nessa casa de altíssimo gosto, inclusive musical, que fica na Av. Paris, Lisboa, onde resido até fevereiro).