sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O paradoxo francês

Estou às voltas com Robert Castel, um autor que descobri durante o mestrado e que agora faz todo sentido nesta pesquisa/viagem intelectual/territorial. Lembro que depois da dissertação, até quis ecrever um artigo com os resultados, mais fundamentado nas análises de Castel, mas orientada por minhas supervisoras, fiz outra escolha teórica (o artigo, aliás, escrito em 2009, deve enfim ser publicado em 2013, pois já está aprovado e revisado há alguns meses pela Revista Physis). Agora, porém, o tema da insegurança x segurança social está ainda mais pertinente às minhas questões de investigação. Uma de minhas hipóteses é a de que mulheres que tem acesso a serviços públicos de apoio à maternidade, especialmente serviços de childcare, tem mais bem estar subjetivo do que aquelas que só podem contar com a família ou consigo mesmas. E aí vemos alternativas muito diferentes de serviços entre Suécia e França, em que no primeiro país encontra-se um modelo de serviço universal e padronizado, com uma estratégia mais assentada na igualdade de direitos, e no outro, há uma referência importante à livre-escolha, ainda fortemente subsidiada pelo Estado, mas bastante desigual entre classes e regiões. O paradoxo social francês (que é também em certa medida, sueco, portguês, inglês, espanhol etc) me dá uma perspectiva sóbria do problema. Afinal, um Estado democrático que pretenda garantir a igualdade nunca poderá garantir o cumprimento de seus dois objetivos básicos perfeitamente: liberdade e igualdade para todos.

"Dans ces société d'individus; la demande de protection est infinie parce que l'individu en tant que tel est placé hors des protections de proximité, et elle ne pourrait trouver son accomplissement que dans le cadre d'un État absolu (...) Mais cette même société développe en même temps des exigences de respect de la liberté et l'autonomie des individus qui ne peuvent s'épanouir que dans un État de droit. Le caractère à la fois irréaliste et bien réel du sentiment contemporain d'insécurité peut ainsi être compris comme un effet vécu au quotidien de cette contradiction (...)"

Caste, R. 2003, L'insécurité sociale. Qu'est-ce qu'être protégé? (Page 23)

P.S.: Nessa parte do livro, surge uma nota de rodapé sugerindo o exemplo do Brasil como lugar onde as pessoas convivem diariamente com a tão temida insegurança.