terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Saudade da poesia

Hoje fui numa visita guiada ao Museu Nacional de História Natural em Lisboa. A visita fez parte de um dos seminários que estou cursando aqui. O Museu é enorme e tem coisas super interessantes, como uma sala de aula e um laboratório de química do século XIX. Como um túmulo de mármore do fundador original do edifício (de 1700 e bolinha) encontrado no quarto do zelador há poucos anos atrás. Como fósseis de um dinossauro encontrados em 1998 num jazigo português - o único da espécie na Europa. Como uma exposição de desenhos científicos - desenhos que servem como exemplares de certos tipos de animais, plantas, humanos, enfim que sirvam à diversas áreas da ciência. No acervo interno do Museu (ao qual tive o privilégio de acessar) há livros com os desenhos científicos das primeiras expedições portuguesas a Amazonia, no século XVIII, incrivelmente conservados. Uma beleza!

De início, não vejo muita aplicação dessa visita na minha pesquisa. Mas ela terá um peso na minha formação, como pesquisadora. Acho que faz parte desse momento, acumular alguma bagagem cultural que me sirva também de chão para pesquisar. Afinal, é aqui, em solos estrangeiros, que minhas questões serão respondidas. É bom me aproximar mais das narrativas portuguesas, de sua forma peculiar de contar e valorizar a História e a Ciência. Foi hoje que enfim compreendi que o tempo de restrição das liberdades políticas e civis nesse país contribuiu muito para que o desenvolvimento científico passasse principalmente pela valorização dos séculos anteriores ao XX. Vide tanta memorização das grandes navegações, da conquista dos mares.

Mas eu comecei esse post pensando nos desenhos da exposição. Porque foi dito que eles não são considerados arte. Eles não tem poesia. São lindos, extremamente realistas, são úteis, são científicos. Mas não tem poesia, nem tem que ter. Quanto menos subjetividade melhor - segundo as palavras da professora que nos guiava. Mas dá pra ver as figuras de indígenas brasileiros sem pensar em poesia? Dá pra ver os nativos amazónicos emoldurados sem pensar em música? Dá pra admirar as conchas do beira mar detalhadamente desenhadas sem lembrar do som delicioso que fazem ao pé do ouvido? Dá pra esquecer que a vida é poesia enquanto descrevemos a realidade?

Aí lembrei do Museu do Descobrimento em Belmonte, na Serra da Estrela, que abriga uma exposição linda sobre as navegações e a chegada dos portugueses ao Brasil. A exposição chega até aos dias de hoje, e mostra um Brasil diverso, através das músicas, das frutas, da língua, do povo. Foi gostoso ver o olhar português sobre a poesia brasileira nesse pequeno museu que homenageia os Cabrais. Saudade dessa poesia...