sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Simon Szreter: o inglês que não laisse faire

Estou lendo o terceiro texto de Szreter, um historiador inglês que tem me feito pensar sobre os papéis e limites da saúde publica - sobre o que esse campo de conhecimento e prática profissional vem contribuindo para as sociedades democráticas, e sobre os limites dos Estados democráticos em sua promoção. Ao mesmo tempo em que ele me faz perceber a importância da atuação política de todos os envolvidos com a saúde das populações, deixa no ar o incomodo com as contradições das instituições que representam ou alimentam essa atuação.

Para ele, não basta identificar a associação positiva entre padrão de consumo e renda com a queda da mortalidade e o ganho de expectativa de vida. Não adianta identificar padrões de associações entre indivíduos e comunidades, que levam ao ganho de capital social e consequentemente à participação em sociedades mais "saudáveis". Ele vem pontuar como algumas das teorias "inovadoras" das últimas décadas do século XX vão na onda de um "laisse faire" antigo e filosoficamente superado.

Ainda que a gente reme, pesquise, olhe para o passado e pontue as discrepâncias sociais do presente, a ideia liberal de que é melhor fazer crescer o bolo, para depois distribuir os pedaços... e então, melhorar a saúde das pessoas, continua reaparecendo e tomando mais atenção do que a justa medida que a história confere.

Mas, Szreter confere ao grande e complexo movimento da Saúde Pública um papel fundamental para as mudanças sociais. Lendo seu artigo sobre a famosa teoria do demógrafo McKeown, dá até pra sentir um constrangimento por este, já que Szreter demonstra tão acuradamente a importância desse movimento ao longo da história para o ganho de saúde das populações (superando a relação entre a nutrição e a renda com o aumento dos anos de vida). Como um demógrafo estudado e experimentado na academia poderia deixar passar um erro desses? Esquecer-se de que um movimento tamanho teve e tem ainda papel crucial para as mudanças de comportamento dos indivíduos, para a adoção de políticas de saúde, e até mesmo para a promoção de uma lógica mais distributiva e menos individualista no mundo... Como? Suspeito que, quando um movimento se amplifica a ponto de chegar a representações institucionais internacionais gigantescas, como a OMS, e tem seus "discursos" científicos legitimadores o tempo todo pincelados na mídia, pode ser facilmente assimilado como parte natural da vida, como se sempre estivesse aí, e portanto, não pode ser considerado uma "variável independente" relevante.

É intrigante como atualmente conclamamos os dizeres científicos para legitimar e prever os efeitos das leis e da atuação dos governos. Mas, ao mesmo tempo, os próprios governos tem ignorado com frequência o teor político (necessário?) desses discursos. Afirmar que o parto natural é melhor para a mulher, baseando-se em informações científicas, não pode estar descolado de uma consciência política, por exemplo. Tal afirmação gera mudanças se for encarada como "verdade", mas também e ainda mais profundamente se for compreendida em seu caráter político de libertação das mulheres.

"The field of public health is thus a grand social intervention. It is politically created in a particularly thoroughgoing sense. Its relationship with social change is therefore as politically and ideologically intimate as can be found in the range of the human, social, and biological sciences." (Szreter, 2002)

Szreter, S. Rethinking McKeown: The Relationship Between Public Health and Social Change. American Journal of Public Health, May 2002, 92:5.