domingo, 24 de fevereiro de 2013

Comunidades, solidão e maternidade transitória

Talvez meu olhar esteja muito enviesado esses dias por causa do ensaio que estou escrevendo. Mas tudo que leio e contemplo ultimamente leva-me a pensar sobre as presenças e ausências da comunidade, do sentido de pertencer a um grupo social estável - no tempo e no afeto - nos dias de hoje. Penso especialmente na situação das mães, das famílias (e isso obviamente é fruto de um forte viés do meu olhar, por causa da minha pesquisa mas também pela minha vida pessoal, longe do meu país e da minha família parental).

O ensaio que escrevo desde o dia 15 de fevereiro nasceu espontaneamente, depois de um sonho que me acordou as 5 e meia da manhã e não me deixou mais dormir. Fiquei trinta minutos insistindo na cama, mas não conseguia parar de pensar nos olhos azuis que me encararam no sonho, lembrando-me do olhar da minha ex-terapeuta e de nossos encontros e desencontros depois que virei mãe. A psicoterapia, e mais ainda, a psicanálise são os refúgios individualistas necessários numa sociedade em que os sentidos não estão aí facilmente à disposição como presente dos deuses e dos antepassados. Onde a religião e a comunidade tradicional perderam lugar, a Razão e suas institucionalidades práticas e ideológicas ganharam solo fértil. As pessoas se individualizaram, as famílias se nuclearizaram e a ciência (e o conhecimento especializado ainda que exotérico) se capilarizou. Não constato isso, como na letra da música Índios, de Renato Russo, com "essa saudade que eu sinto... de tudo que eu ainda não vi", mas com a honestidade de admitir que se não é saudade, é a falta mesmo de um apoio social mais amplo e mais estável que me abate agora, como mãe (a mesma que me levou ao consultório).

Um olhar branco e honesto sobre os índios admite que o senso de pertencimento e de solidariedade entre as tribos nativas são invejáveis. Mesmo que não se queira ser súdito de um pajé ou um líder espiritual que tem como objetivo reproduzir continuamente os sentidos dos antepassados, não dá pra ficar insensível às belezas das comunidades tradicionais. Hoje, vi um documentário que retrata essa unidade, acompanhando uma pequena comunidade na construção de uma casa sagrada desde a coleta do material na natureza até a erguida das colunas de madeira e do telhado de palha, passando pela morte de um de seus líderes durante o processo, no Timor Leste. O filme faz parte da exposição Plantas e Plantas da artista Narelle Jubelim. E na mesma exposição, há um filme de uma outra comunidade, cristã modernista, na Tasmania. Nesse, os poucos membros da igreja participam da plantação do jardim que rodeará o prédio, num ato de solidariedade e profunda ligação com o lugar. Muito bonito.

Mas, ao mesmo tempo, não esqueço que os sentidos reproduzidos por grande parte dessas religiões e tradições reforçam a desigualdade de gêneros, a discriminação da homossexualidade e das formas diversas de família que não a composta por mãe (mulher) e pai (homem). Ainda que eu sinta falta de pertencer a uma comunidade afetuosa como essas, não posso negar meu incômodo com a submissão das mulheres. Ainda que eu não tenha me tranquilizado com os sentidos psicanalíticos, e não tenha terminado minha análise com a clássica "descoberta" de que sou uma neurótica normal como todas as outras, também não me vale a busca por aquilo que não faz mais parte da minha formação. E então? Resta apenas consentir no individualismo radical?

Esse individualismo tem me incomodado no romance de Alexandra Lucas Coelho, A noite roda. Não é que a autora seja apologista do individualismo. Mas é que a narradora, uma personagem feminina, jornalista, que viaja os dois extremos do mundo e desfila entre os destroços da Faixa de Gaza e um caso de amor parisiense, é tão tão solitária que dói. Seu relato em primeira pessoa, em busca de resgatar o caso desaparecido, é constrangedor em várias passagens, em que o caos de um grande conflito internacional parece ser apenas o pano de fundo para uma vida solitária e pragmática que passa... A paixão que é repentinamente perdida se torna então o fato mais relevante, mais cheio de vida, dessa mulher que, a princípio, poderia ser tão interessante. Mas não há sinal de afetos e laços genuinamente solidários entre a narradora e seus colegas de trabalho, sua família, seus entrevistados e contatos na Palestina. Ela fala de suas vidas com uma objetividade jornalística cortante. Lembro-me de como, hoje, vivemos esses grandes e fantásticos caos mundiais pelas linhas breves e econômicas dos sites jornalísticos ou dos compartilhamentos das redes virtuais, das discussões em listas de e-mails, enfim. Discursamos sobre o Outro sem saber quem ele é, sem se aproximar de sua realidade. Lembro das bandeiras que pegamos emprestadas sem qualquer envolvimento de fato solidário com os signatários dos abaixo-assinados que assinamos. E um caso de amor arrebatador se torna tão necessário diante da falta de laços sociais fortes e duradouros que é a coisa mais viva que temos para contar.

A maternidade, vivida então como a relação microcosmica entre mulher e criança me parece tão tão solitária que dói. Apesar de toda verdade científica escrita sobre o amor primordial de mãe e bebê, apesar de todas as evidências hormonais, neuronais, anatômicas, da complementaridade entre esses dois personagens universais, a História e as análises sociais mais críticas e interessantes me mostram que tanto um quanto o outro são construções históricas, são passíveis de serem compreendidos de outras formas, de serem vividos de outras maneiras. Então, tenho pensado numa linha de fuga para essa captura da ciência moderna. A maternidade enquanto função relacional entre o cuidador/a e o bebê pode ser exercida coletivamente e pode ser assumida por outro personagem que não a mulher, em momentos diferentes. A realidade tem mostrado que as pessoas inventam suas formas de organização diária, para dar conta dessa relação, e que mesmo diante de uma gama de diversidade, as mulheres que engravidam continuam debatendo-se com essa discriminação estrutural de gênero. Elas contratam as ajudas que podem, mas assim, são criticadas por terceirizar os cuidados com os filhos. Elas lutam, muitas vezes, com a falta de amor pela criança, diagnosticando-se deprimidas. Elas aceitam a pressão por engravidar porque senão se sentirão incompletas. Ou seja, os eventos que fogem ao modelo "normal" de relação mãe-bebê são ignorados ou condenados pela ciência (aquela mesma de onde tiramos grande parte de nossos repertório de sentidos). E ao lado, homens sofrem alienação parental (voluntária ou não), excluindo-se das maravilhas que podem ser vividas no dia a dia com as crianças.

Pergunto-me (ainda apenas pergunto): sendo a maternidade encarada em seu aspecto transitório e tendo sua universalidade questionada não seríamos mais livres para cuidar sem neuroses de nossas crianças? Penso no quanto seria menos solitário se tivéssemos espaços coletivos de trocas, de compartilhamento do cuidado familiar, não apenas de forma virtual, reproduzindo os confessionários ou os divãs em ambientes virtuais, mas na troca de olhares reais. Pergunto-me se assim não ficariam mais visíveis as diferenças, as formas distintas de maternidade, e até mesmo não descontruiríamos relações de poder tão arraigadas.

É assim que tem nascido meu próximo texto, que transita entre a academia e a literatura. Por enquanto, batizei-o de A Mãe e o tempo: ensaio sobre a maternidade transitória.