terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dias iluminados

Ah que dias iluminados! Vamos as novas atualizações:

- Estou no Mans desde ontem. A primeira noite no hotel foi calamitosa. Mas, o dia foi bem agradável, passeando pela Vieux Mans, onde há casas e igrejas que datam do século XII.

- Antes mesmo de chegar à cidade, minha mente se iluminava com o texto excepcional do professor Marc Bessin com Elsa Dorlin: "LES RENOUVELLEMENTS GÉNÉRATIONNELS DU FÉMINISME : MAIS POUR QUEL SUJET POLITIQUE ?" (desculpem o caps lock, mas copiei o título direto da revista L'Homme et la societé de 2005). Comi o texto durante a viagem de 2 horas entre Paris e Le Mans. Uma bela história sobre o feminismo francês desde a década de 1970 até os desdobramentos da teoria Queer. Fiquei com a feliz impressão de que, afinal, o feminismo português não era "atrasado" e que a ciência da periferia, como diz a minha professora Fatima, não precisa ser encarada assim. Ao mesmo tempo que algumas autoras portuguesas denunciam o feminismo de Estado do período pós Salazar, dando a entender que não havia muita mobilização espontânea, fora da academia e dos programas de governo, voilà le professeur français qui a dit la même chose sobre a França... ou prèsque la même chose. Os autores do texto identificam o distanciamento do feminismo acadêmico dos anos 1980 com os movimentos sociais das ruas, e a predominância de uma tentativa de legitimar o campo de estudos feministas, de gênero e de mulheres, com exclusão de temas que fugiam à exigência da suposta objetividade da academia (dominada por homens). Mas, depois, eles parecem bastante eufóricos com a terceira fase do feminismo - desde os anos 1990 - influenciado pela literatura anglofônica, especificamente a teoria Queer. Ainda estou confusa com suas palavras, mas é uma confusão boa, que me fez até repensar o meu objeto de estudo, sem querer desistir dele, mas sabendo quais são suas limitações.

- Outra experiência intelectual deliciosa ocorreu hoje de manhã. Fui visitar uma região do Mans onde há uma grande reserva natural, o chamado Arche de la Nature, e antes de adentrar no verde, deparei-me com o Centre Culturel de l'Espal. E nele, fui convidada para acompanhar uma turma de crianças na visita guiada. Que coisa boa! Primeiro porque fiquei contente com meu francês, pois consegui compreender bem quase tudo que o monitor disse, depois porque observar a interação entre ele e os alunos (que deviam ter uns dez anos de idade) me trouxe muita inspiração. Além de, claro, eu ter apreciado muito a exposição com as fotos de Jean-Luc Meyssonnier e as pinturas de Alexander Holan. A iluminação foi tanta que depois de uma hora acompanhando a visita, tive que parar um pouquinho para escrever (estou escrevendo algo novo que começou numa madrugada da semana passada depois de um sonho intrigante. Não é uma ficção exatamente, nem uma crônica. Estou chamando de "ensaio" - agora é a hora em que lembro pela milésima vez dos outros QUATRO trabalhos que ainda tenho pra entregar antes de encerrar minha participação na primeira fase do doutorado/desafio, em Lisboa - enfim). A exposição é toda baseada na Árvore, no encontro do artista/observador com a árvore/objeto/observadora. Alexander Holan diz que os dois se observam e produzem algo novo desse encontro, pois o objeto nesse caso também afeta ao observador. E outras coisas afetam esse encontro, como a perspectiva, o fundo, a luz... Fiquei mais afetada pela visão bem de perto da copa da árvore, com suas múltiplas transações e intersecções. Uma viagem!

Então, segue aí a pequena amostra desses últimos estímulos inspiradores: les enfants, le prof, meu quadro preferido, árvores e flores de L'Arche de la Nature, meu pé pisando a grama molhada de relva.