segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O ativismo materno num mundo centrado no trabalho

Eu estou trabalhando agora. Considero-me trabalhando quando sento pra escrever um texto que é o meio do caminho entre as leituras que faço para o doutorado e o artigo que tenho que escrever para receber uma nota de avaliação. Este texto não é nem o ponto de partida nem o de chegada. É um amontoado de reflexões mais ou menos organizadas de uma pesquisadora que resolveu voltar-se para a condição da maternidade no mundo contemporâneo, e que para isso tem que visitar o passado, olhar para outros países, para sua própria casa e sua experiência enquanto mulher, mãe, trabalhadora, e ativista.

Estou escrevendo então não só para produzir algo mensurável, como produto de um doutorado, devidamente remunerado e supervisionado. Estou escrevendo agora como ativista, como mulher e mãe. Também como brasileira, já que minhas perplexidade diante do que leio vem desse pano de fundo enorme e complexo que é o meu país. Portanto, estou trabalhando, e você vai entender por que, no fim das contas, é isso que faço o tempo todo.

Diante da constatação de que vivemos num mundo centrado no trabalho, em que os direitos e deveres de cidadania foram construídos com base no trabalho remunerado, e que a própria identidade das pessoas passa pelo que elas são profissionalmente, começo a enxergar um outro tipo de atividade trabalhosa que não é reconhecida da mesma maneira: o ativismo, o engajamento cívico - fazendo uma tradução literal do conceito usado por Pamela Herd e Madonna Meyer no texto "Invisible Civic Engagement". 

Para os teóricos preocupados com o engajamento cívico, este tem que partir do altruísmo de cada indivíduo e de sua relação com a comunidade onde vive. O ativismo, para ser considerado dessa forma, não pode ser remunerado - senão, vira lobby. E lobby não é uma forma autentica de participação social (taí o filme Obrigado por fumar que mostra isso brilhantemente). Para os teóricos do "capital social", outro conceito que fala da capacidade das pessoas em participar da democracia e influenciar as decisões políticas de seus representantes, o ativismo deve ser resultado dessa capacidade, mais do que da pressão de interesses externos. Até mesmo sindicatos e partidos políticos são vistos com desconfiança, pois eles possuem o dedo do Estado ou de interesses mercadológicos. Mas, há também os teóricos que não pretendem purificar o engajamento cívico. São aqueles que vêem complexidade, relações, construções sociais em tudo, os institucionalistas históricos. Para eles, é normal que haja interesses diversos promovendo a participação social, a questão é, portanto, identificar as desigualdades na arena.

Num mundo em que trabalhar significa estar incluído, é fato que, seja em forma de lobby seja em puro ativismo, são os grupos organizados em torno de questões trabalhistas ou de identidade profissional que alcançam maior nível de participação na democracia. Mesmo que todos os teóricos citados acima enfatizem a importância da família como primeiro grupo social do indivíduo, mesmo que para ganhar capital social, seja fundamental que os pais se esforcem para criar um senso cívico nas crianças desde cedo, o trabalho invisível do cuidado doméstico não é reconhecido, nem como engajamento nem como trabalho. Ao afirmar isso, Pamela e Madonna me deram uma pista sobre o ativismo materno - esse mesmo que temos visto crescer muitíssimo nos EUA e, em rebarba, no Brasil.

Se uma mãe é profundamente tocada pelas necessidades de seu filho, no dia a dia, e por suas próprias necessidades enquanto pessoa não incluída (ou mal incluída) no mundo do trabalho, ela vai ser motivada a agir. Ela vai buscar pessoas com as quais dividir seus incômodos, e vai encontrar certas formas de engajamento cívico tradicionais, como os grupos mencioados acima. Ela pode se envolver com a associação de pais da escola de seus filhos, ela pode fazer parte de um grupo de mulheres de sua igreja, enfim. E ela pode também adotar um ativismo de sofá - qual seja, trocar virtualmente com outras mães e pais. Mas, essa mãe precisa de tempo e energia para incluir o ativismo em sua agenda, mesmo que seja apenas digitando, lendo e compartilhando conteúdos. Numa sociedade onde nem os cuidados domésticos nem a participação social são reconhecidos como trabalho, é muito difícil que ela consiga conciliar seu ideal de intensive motherhood (ou seja, maternidade intensiva, criação com apego, e suas variantes), com o ativismo - a não ser que ele se torne, em algum momento, em alguma medida, uma ativista profissional.

E quem consegue ser ativista profissional? Mulheres com formação especializada, uma formação que combine com sua causa. Assim, ser doula e ser engajada no movimento pelo parto humanizado é um exemplo dessa forma de transformar o engajamento cívico em trabalho, e ser socialmente reconhecida. Enquanto os movimentos vão crescendo, vão ganhando novas "profissões", assim, advogadas vão começar a defender mulheres que foram violentadas em seus partos, escritoras vão escrever sobre o assunto, pesquisadoras vão pesquisar... 

O problema de uma sociedade que não reconhece o trabalho do cuidado doméstico como chave para o engajamento cívico é que ela deixa à mercê das possibilidades econômicas de cada cuidadora a sua cota de participação na democracia. E é por isso que vemos movimentos enormes, que tocam numa causa tão fundamental quanto o nascimento humano, gritarem mais alto quando as atrocidades contra as parturientes são cometidas numa maternidade privada numa das cidades mais ricas do país.

Ninguém duvida ou ignora o fato de que as violações aos direitos humanos das parturientes mais pobres ocorrem diariamente, nas maternidades públicas ou na falta de acesso a elas. Todo mundo sabe que o desrespeito é ainda mais violento nesses casos. Mas, não são as histórias tristes de mulheres que morrem nas portas das maternidades ou de bebês que somem nas enfermarias que promovem toda a mobilização aparente na mídia. Essas histórias acabam fazendo parte de nosso dia a dia, enquanto leitoras de jornais, mas não enquanto ativistas ou trabalhadoras - com exceções, claro. O que quero dizer é que, numa sociedade em que o trabalho doméstico não é reconhecido como base para o engajamento e como TRABALHO, a vida parece nos colocar diante de alternativas nada ideais: a) cuidar de nossos filhos, trabalhar fora e não ser engajada; b) cuidar de nossos filhos e ser ativistas profissionais; c) cuidar integralmente dos filhos e ser economicamente dependente, sendo ou não engajada; d) não cuidar dos filhos e ser profissionalmente realizada; e por aí vai...

Eu sonho com um ativismo que seja inclusivo, que enxergue a violação dos direitos básicos das mulheres. Mas, eu reconheço que ele é muito difícil de ser exercido num país onde o fardo do trabalho doméstico não pago é quase exclusivamente assumido pelas mulheres. 

Pamela e Madonna não defendem que o ativismo deva ser remunerado, apesar de reconhecerem que muitas mulheres acabam transformando sua carreira profissional em prol de um engajamento cívico importantíssimo. Elas preferem defender a divisão do trabalho do cuidado - como elas dizem, unpaid care work. Numa sociedade em que o cuidado com as crianças é responsabilidade de todos, criam-se estruturas universais para que todas as mães e pais possam ser incluídos, exercendo o ativismo por um lado e sendo remunerados em suas profissões. Assim, as mulheres não são confrontadas de forma tão desigual com as alternativas acima. Elas sabem que podem dividir seu tempo entre as tarefas do cuidado, a vida profissional e a luta social, contando com serviços públicos de qualidade para o acolhimento de seus bebês e crianças. E não só isso, mas também a divisão com os homens. Uma sociedade que pretende continuar firmada sobre as bases dos direitos e deveres de cidadania, e sobre o trabalho enquanto forma de inclusão, deve se responsabilizar igualmente pelas crianças e não sexualizar esse cuidado - mulheres não são feitas para parir e cuidar. Homens não são feitos para prover. Todos são cidadãos e devem ser reconhecidos como tal.

Eu continuo otimista com o ativismo de sofá e os movimentos profissionalmente determinados, mas gostaria muito que esse nosso engajamento não se esquecesse das milhares de mulheres alijadas em seus direitos e sufocadas com um dia a dia de um trabalho invisível e não remunerado.

*Texto da vez: Herd, P. & Meyer, M. Invisible Civic Engagement. Gender e Society, vol. 16, n. 5 (Out. 2002)