quinta-feira, 28 de março de 2013

A Mãe e o tempo

Botei minha cara a tapa mais uma vez. Praticamente vomitei 4 anos de reflexões, pensamentos, vivências e pesquisas num livro curto, objetivo e direto: A Mãe e o tempo é um ensaio. Um prelúdio para minha tese de doutorado. Um final muito feliz para a minha carreira de "mãe" (que não terminou, claro, mas que hoje é mais livre e bem resolvida).

Hoje mesmo o livro foi parar na caixa de uma editora a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente e com  quem já troquei algumas figurinhas. (E o Quatro mulheres sobre a morte também está em boas mãos, agora sendo realmente avaliado por uma editora bacana). Enquanto não tenho certeza de quando e como meus filhotes vão ser divulgados, segue um trechinho dessa nova obra. Voilá A Mãe e o tempo: ensaio sobre a maternidade transitória (páginas 6 a 8)


Ah mas a maternidade desconcertante dos nossos dias fez-me voltar para aquele sofá – aquilo não era um divã, era um sofá cama transformado em móvel híbrido, ambíguo, onde os mais expansivos expandiam-se a ponto de você comentar o quanto era inconveniente o fulano que já chegava deitando sem sapatos. E depois você me perguntava por que eu nunca parecia me sentir à vontade no seu consultório! Mas, eu também era expansiva. Só que com as palavras. Eu precisava organizar minhas ideias, as mais estranhas e desafiantes ideias que mais tarde me ajudariam a traçar as tais linhas de fuga esquizoanalíticas. Mas eu ainda não sabia.

Novamente, o meu problema não era a neurose. O problema é que eu precisava de tempo... para apreciar a mim mesma, para olhar para outra coisa ou para as mesmas coisas que eu vinha olhando sem tempo de enxergar. Eu precisava enxergar, e no sofá diante de seus olhos, havia, pelo menos, tempo.

Foram alguns encontros, e muitas interrupções. Dos seis meses ao quase três anos completos de minha maternidade, nós nos encontramos de forma bastante instável. Chegamos a ficar meses sem conseguir marcar uma sessão. Eu continuei cuidando intensivamente da minha filha, tentando conciliar família e trabalho, procurando creches, desistindo delas, tentando confiar numa babá, sem boas alternativas, contando  com os parentes, brigando com eles, fazendo concurso público, candidatando-me para doutorado, assumindo cargo público, escrevendo livros, editando blog, trabalhando 6, 7, 8 quase 10 horas por dia, escolhendo uma boa escola cara, morrendo de saudades da minha filha, desistindo do emprego, dependendo financeiramente de meu marido, virando "mãe empreendedora", achando graça disso tudo e entrando em parafuso... Enfim, enquanto procurava ajuda em seus olhos, que pareciam cada vez mais distantes e desinteressados, fui mudando as estratégias para conciliar a minha "nova" vida e a identidade que eu costumava usar.

Portanto, este ensaio não é sobre a maravilhosa trajetória da mulher que se descobriu inteira depois de passar pelo vale da maternidade. É sobre o tempo e a transitoriedade da Mãe. Ele é dedicado aos olhos azuis que nunca foram capazes de me fazer conformar, confortar, confinar... Foi resistindo e aproximando-me deles que encontrei as primeiras pistas para a hipótese básica deste livro: a identidade não é matéria, não existe previamente para ser encontrada nem completada, e portanto, ser mãe não é nada além do que aquilo que se manifesta nas relações reais de cuidado e parentalidade a cada dia. É um processo, um continum que se cria "entre" – no interior de uma família e para além dela. E por isso, o tempo é tão importante.

Para a Mãe universal – aquela da identidade materna que supõe-se existir previamente a toda reprodução – o tempo não importa, é como se ele não condicionasse nada e não fosse também afetado por nada. Para a Mãe eterna e redentora, o tempo é a eternidade, e por isso ela está sempre disponível e marcada pela maternidade. Mas, para as mães reais, e principalmente, para as crianças reais, o tempo faz toda a diferença. Na experiência coletiva das sociedades, ao longo da História, e nas experiências individuais de quem cuida em primeira pessoa, parcialmente ou integralmente, o tempo é um elemento definidor da maternidade.

Assim, aqui está o processo e o resultado (sempre em aberto) de um manifesto pessoal e um exercício intelectual sobre a Mãe e a maternidade real.