quarta-feira, 17 de abril de 2013

As vozes subalternas

Ontem tive outra experiência peculiar em Paris. Depois da aula, a professora responsável pelo curso Genre et Globalisation (onde ocorreu aquele conflito aberto entre duas professoras feministas), convidou as alunas para uma esticadinha num bar ao lado da escola, com o objetivo de voltar àquele dia do conflito e falar sobre ele. Foi uma ótima oportunidade de compreender melhor o feminismo acadêmico francês, a estrutura universitária francesa e a relação dela com os estudos de gênero. Mais do que isso, foi super interessante traçar as linhas de sentido entre esse momento da minha vida, este evento específico, e as coisas que tenho lido e discutido no mundo feminista afora.

A conversa saiu do diagnóstico de um problema pessoal entre duas acadêmicas (nada incomum) para chegar na questão da interseccionalidade no feminismo (aliás, conceito novo pra mim, que tenho descoberto pela leitura de Elsa Dorlin). O fato é que entre a professora magrebina e a francesa irritada há uma relação de poder, que mantém a primeira numa posição desfavorável dentro da academia, confrontada frequentemente com a pressão para se afirmar, para explicar de onde vem e por que vem. Se ela não se importasse com essa relação de poder, poderia passar tranquilamente por feminista francesa, antropóloga, formada na EHESS, denunciando o patriarcado ad eternum. Mas, ela sente essa atitude como um silenciamento, uma forma de apagar suas questões de pesquisa mais pulsantes, as que dizem respeito às mulheres migrantes ex-colonizadas - e assim, ela se posiciona com tanta agressividade que, ao meu ver, joga fora o bebê com a água da bacia. Há estratégias e estratégias. Não vejo a Elsa Dorlin, por exemplo, silenciando-se ou apagando-se por recorrer a teorias feministas já bem vistas no métier francês, como o Black Feminism americano. De alguma maneira, ela tem conseguido impor interseccionalidade onde o domínio de uma sociologia objetivista ainda reina.

E aí que faço a linha com o livro que acabei de ler: Care et Sentiments de Patricia Paperman - outra autora se esforçando para que um conceito americano penetre na tradicional sociologia francesa. Ela argumenta que a perspectiva da ética do care (palavra inglesa que parece não ter tradução literal para o francês, e penso eu, nem para o português; acho que o mais próximo seria "cuidado"), não é um quadro racional de categorias sociológicas definindo quais são os conhecimentos necessários para uma relação de cuidado (por exemplo, entre pais e filhos, entre profissionais da saúde e pacientes, entre cuidadores e idosos). Sua teoria propõe que é voltando-se para as "vozes subalternas" das cuidadoras, que Estado e academia podem construir ferramentas políticas e analíticas sobre esse campo tão necessário e importante. Um adendo: [Cada vez mais, as pessoas preocupam-se com esse tema, basicamente, porque vivem mais tempo, e tem mais propensão a doenças crônicas, enquanto as famílias tem ficado mais reduzidas e as mulheres já não assumem automaticamente a responsabilidade pelo cuidado dos dependentes. Na tentativa de correr atrás do prejuízo e tentar compreender o que chamam de "crise do care", políticos, jornalistas e pesquisadores recorrem a explicações estáticas e preconceituosas sobre o que faz um (ou o que deve fazer) um cuidador]. A perspectiva de Paperman coloca a questão de gênero em primeiro lugar, e não somente, mas o reconhecimento das diferenças e especificidades das cuidadoras. Reconhece-se que elas constroem suas referências morais e práticas no dia a dia, na relação real com aquele de quem se cuida, incluindo aí sentimentos e afetos, desejos e rejeição, estratégias pessoais e comunitárias, enfim toda uma complexidade de elementos sociais que tem sido erroneamente incluídos na caixinha dos "oprimidos", "subalternos", "dominados", etc. Por que considerar, a priori, como fraco ou alienado o conhecimento produzido por essas pessoas? Não seria melhor atentar para o que, de fato, elas produzem/sentem/expressam? É assim que poderemos enxergar a interseccionalidade, as variadas dimensões aplicadas ao care.

É claro que não são só mulheres que atuam nesse tipo de relação. Mas, sabemos que, quanto aos filhos, por exemplo, os cuidados são assumidos majoritariamente por elas - seja na figura da mãe seja na figura de uma babá, uma avó, uma tia, professoras, enfim. E ao mesmo tempo em que se demanda essa participação feminina intensa, ignora-se o poder e o conhecimento que são produzidos por ela. Não basta denunciar a desvalorização do trabalho doméstico, ou reiterar atemporalmente a pressão social para que as mulheres exerçam esse trabalho.

É aí que eu me volto para outro fio da meada, e levo o sentido para outro canto. Recentemente, li a tradução de um texto de Katie Roiphe (que aqui chamaram de A derrota do feminismo, mas eu soube que o original é Disappearing Mothers), que me incomodou bastante porque parece entrar na linha de um feminismo acadêmico antiquado. Não me leve a mal, eu entendo claramente a importância dos clássicos, e da clássica visão sobre o patriarcado versus mulheres. Mas, questiono se usar essa lente estática não apaga justamente aquilo que o feminismo interseccional quer ver: as experiências reais das mulheres reais - em sua diversidade. Se já partimos do pressuposto de que priorizar os filhos é reflexo de uma sociedade patriarcal, retiramos das mães que o fazem o poder que, de certo, tem. Há conhecimento, capacidade de escolha e resistência, de fazer política e exercer o feminismo, na maternidade (lembro agora daquele artigo de Herd & Meyer sobre a invisibilidade do engajamento cívico das mães). O dia a dia do cuidado, na perspectiva da ética do care, não é apenas um dominó disparado pelo domínio machista, pela opressão de uma sociedade patriarcal. Quem exerce esse cuidado pode falar por si mesma por que o faz, e como o faz. Se ele está acoplado à sua identidade - como foi interpretado pelas pessoas que se admiram com as mães que usam fotos de seus filhos no perfil do Facebook - não significa que seja negativando-a. Essa afirmação não vem de quem exerce a maternidade mas de quem usa a lente de uma sociologia objetivista (ainda que feminista) para descrever as relações familiares e as relações de cuidado.

Tudo isso tem me motivado, cada vez mais, a buscar as "vozes subalternas", sem jogar fora o bebê junto da água e sem ignorar elementos pouco "sociológicos" como os sentimentos. Será que eu mesma não posso ser considerada parte delas? Provavelmente sim. Engravidei aos 26 anos, num país onde o aborto é proibido, onde não temos acesso a serviços de care adequados, nem para as crianças nem para os adultos - pouquíssimos para as mulheres grávidas e mães. Interrompi minha carreira acadêmica por uns poucos anos, de um lado por não ter tido boas alternativas de acolhimento para minha filha, por outro porque recebi quase nenhuma proposta de trabalho qualificado nessa área, depois de ser mãe. Senti o preconceito diretamente, em diversas situações. Propus um projeto de pesquisa para o Doutorado, focado em serviços de acolhimento para bebês, por três vezes, fui rejeitada, sempre com a mesma explicação "não temos ninguém que trabalhe com esse tema", "esse tema não é uma prioridade". Encontrei no feminismo vozes de outras mulheres que, como eu, assumem a maternidade de forma intensa e potente. Não me sinto um sinal da derrota do feminismo, mas o sinal de que este precisa deixar-se renovar.