terça-feira, 2 de abril de 2013

Disputas feministas na sala de aula

Título do curso: Genre et Globalisation: genre globalisé, cadres d'actions et mobilisations en débats. O que era pra ser a segunda sessão de debate dentro do seminário que ocorre desde fevereiro na EHESS, se tornou uma cena bem representativa do campo de estudos e da instituição na qual acabo de entrar. Mais do que isso, poderia dizer que a cena, que durou 2 horas angustiantes, ilustra a "hipocrisia francesa", como comentou comigo uma colega italiana, após o desfecho da sessão. Mas, eu confesso que gostei. Até me encontrei rindo, horas depois, na minha viagem de metro até a estação onde tomo o trem para Le Mans. Pensei que realmente, agora, sinto-me em Paris, no centro do métier feminista, um campo de muitas disputas, de uma pulsante e constante reflexão, de ação política e íntima, um campo que atravessa tanta coisa e é atravessado pela tal globalização. Pensei que talvez a invisibilidade dos conflitos nas salas de aulas, à la brasil, é uma outra face da hipocrisia. Aqui talvez não seja hipocrisia convidar uma palestrante e metralha-la de críticas...

Aqui, uma professora é convidada para discursar sobre seu artigo "Peut-on faire de l’intersectionnalité sans les ex-colonisé-e-s ?", e parte de seu percurso acadêmico e militante para desaguar em críticas fortíssimas ao "feminismo dominante francês". Ela vem do Magrebe, ex-colonia francesa e questiona por que afinal as feministas acadêmicas francesas se apropriam da Black Theory afro-americana e pouco refletem sobre seu próprio lugar de privilegiadas, brancas, ex-colonizadoras. Ela denuncia que não há de fato uma abertura para debater a questão da colonização, enquanto, ao mesmo tempo, advoga-se a entrada na terceira onda do feminismo com os estudos pós-coloniais e a Teoria Queer. Ela não se reconhece na produção das pesquisas recentes sobre as imigrantes magrebinas, e reclama um lugar de fato para sua voz enquanto pesquisadora na academia francesa. Ela critica revistas feministas francesas e pesquisas enormes, como a coordenada pelo INAD sobre "casamento forçado" entre as imigrantes na França. Ela ri, de certa forma, até ridiculariza essas pesquisas. Até mesmo um texto escrito por meu orientador (que eu diria ser bem aberto à críticas e contextualizações) é criticado.

Na plateia, uma feminista acadêmica francesa das antigas, que não passa desapercebida. Durante toda a apresentação, ela faz de tudo para extravasar seu incomodo com as críticas, que devem ter sido sentidas na pele. Ela bate os pés, batuca na mesa com a caneta, rabisca, se estica e suspira. Ela é alta, gorda, cabeluda e muito perua. Porta um casaco de pele também enorme. Ela aparece.

Na mesa, diante do resto da plateia, as três professoras que organizam o seminário e que parecem sinceramente desejar discutir criticamente o que seja a globalização do gênero, a transferência e apropriação de teorias e conceitos pelos feminismo, na França e alhures. Todas são de origens nacionais diferentes e trabalham em universidades francesas. Uma outra professora, muito mais discreta, porém também incomodada, tenta colocar questões para a palestrante.

As moderadoras parecem prever a comoção e priorizam as intervenções das alunas - somos cerca de 10 mulheres, poucas francesas, várias latino-americanas, uma negra africana com véu e um longo vestido azul. A única a se pronunciar é uma doutoranda brasileira, que pergunta sobre uma publicação desconhecida pela palestrante. Ela tenta contemporizar a ideia de que não existem estudos feministas que consideram o lugar, a voz, das ex-colonizadas (ela mesma uma ex-colonizada, que reconhece essa identidade?). Em seguida, inevitavelmente, a professora dominante no ambiente se pronuncia. Ela se defende. Fala que o discurso da palestrante é antiquado, baseado numa dicotomia entre dominadores x dominados, diz que ela quer retornar a uma visão entre colonizadores x colonizados, a desafia a relatar detalhadamente seu percurso acadêmico e a revelar o nome de seu supervisor de doutorado. A palestrante se recusa a responder. Não revela detalhes, diz não querer personificar o debate - apesar de ela mesma ter trazido alguns nomes para a mesa.

Não há exatamente ofensas pessoais, mas claramente um choque entre espaços - de quem é aquele espaço? A professora magrebina palestra na EHESS, a grande escola parisiense de Ciências Sociais. Ela foi formada ali, é convidada ali, e é professora numa universidade francesa em Grenoble. A grande feminista das antigas também sente-se parte da conversa, e se apropria do ambiente. Duas feministas disputam o lugar. Nada mais representativo. As moderadoras interferem para evitar o caos, mas foram elas mesmas que propiciaram o encontro.

A outra professora que coloca uma crítica relevante o faz de forma mais tranquila. Ela vem da América Latina (pelo menos tem esse espaço geográfico como objeto e campo de estudos). Ela pergunta à professora magrebina se não ficou faltando um olhar mais atento aos espaços intersticiais, entre produção acadêmica e militante, entre francesas e não-francesas, entre feminismos e feminismos, mesmo dentro da França. Pena que, nessa altura, sua principal interlocutora sai de sala, visivelmente transtornada.

Ela volta com o rosto vermelho. Todos percebem que ela tinha dado uma saída para chorar. Mas nenhuma de suas críticas se comovem. As críticas continuam. Até que a estudante negra resolve se pronunciar. Ela fala de como é viver sob a violência simbólica existente nos espaços universitários franceses. Ela diz que não é tão facilmente recebida como aquelas que se identificam com as afro-americanas, representadas pela Black Theory. Ela dá as pistas para que eu consiga compreender um pouco o choro da professora magrebina. Deve ser muito duro, muito sofrido. Eu não posso saber.

Mas o fato de não poder me colocar strictu senso no lugar daquela mulher diferente de mim, me impede de falar sobre ela? Eu deveria me sentir intimidada a pesquisar as experiências das mulheres portuguesas por ser brasileira? A minha curiosidade deveria se direcionar sempre a uma identidade radicada num espaço geográfico? São questões que me vieram depois, depois de acalmados os ânimos, após o café que tomei no hall da école, enquanto trocava algumas palavras com a professora organizadora da disciplina. Depois ela saiu com as demais para tomar um café - com exceção da feminista das antigas, que já tinha pego o elevador e provavelmente subido para sua sala.

Entendi as críticas, de ambas as partes. E elas me fazem pensar. Depois de terminar meu café, dividindo uma mesa com uma colombiana que também participara do curso, saio para o metro. A tensão dá lugar a uma vontade enorme de rir. Estou em Paris. No vagão, um músico solitário parece tocar a trilha sonora de Amelie Poulain