segunda-feira, 10 de junho de 2013

É hora de pensar na pesquisa de campo: encarando os horrores metodológicos

Semana passada apresentei meu planejamento de pesquisa de campo para os demais alunos do laboratório do qual faço parte, e para meu orientador. Escrevi um relato bem pessoal e reflexivo de umas 5 páginas, e li, em francês, com a cabeça baixa e as bochechas vermelhas - hora de enfrentar a síndrome do horror metodológico! Enquanto escrevia, já antecipava as críticas, já percebia os furos ou lacunas das minhas escolhas. É complicado... Fazer escolhas sempre implica em perder alguma coisa. Eu queria encontrar um método que me ajudasse a compreender os afetos das minhas "sujeitas de pesquisa", e, acabei escolhendo um que foi criado para quem quer "entender". Quer dizer, como disse meu orientador no encontro do laboratório, entender é estabelecer relações causais: fulana se sente assim porque acontece isso. Mas, não é exatamente esse tipo de pesquisa que pretendo fazer. Quero fugir de relações lineares desse tipo, que parecem fechar qualquer possibilidade de articulação multifatorial, quer dizer, que parecem responder à questão com simplicidade mas ignorando toda a complexidade do fenômeno. Se eu quero fazer psicossociologia, a "ciência charneira", a ciência da interseção, então é muito mais interessante manter a visão caleidoscópica que tenho usado desde a faculdade (relendo a minha monografia de conclusão de curso, feita em 2006, vi o quanto já estava presente essa necessidade de superar uma visão linear).

Então, o problema agora é que não sei se posso usar o DRM (Day Reconstruction Method), que, a princípio, me ajudaria a compreender como as mães que abordarei usam o tempo e sentem-se em relação a si mesmas e as atividades que desempenham ao longo de um dia regular. Esse questionário foi criado na interface da Economia com a Psicologia, a partir do conceito de bem-estar subjetivo, que é oriundo da Psicologia Experimental. Não tenho nenhum problema com a Psicologia Experimental, a não ser aquela que pretende provar através de experimentos laboratoriais verdades universais. E não sei se esse é o caso do DRM. Não sei se ele é um método que se limita a essa visão de relações causais lineares.

E se assim for, posso usá-lo e subvertê-lo? Posso adaptá-lo ao meu contexto? Seria interessante? Realmente me ajudaria a chegar onde pretendo?

Não sei... E meu orientador suspeita que não... Marcamos para conversar outro dia, em particular, antes que eu parta para meu campo: vou passar uns dias em Estocolmo e em Lisboa, provavelmente em agosto, para conhecer alguns serviços de acolhimento à bebês e conversar com algumas mães.

Por outro lado, ao buscar os links para incorporar neste post, lembrei-me de um passado bem recente e bem produtivo, no qual a Psicossociologia foi minha principal fonte de formação e pesquisa. Lembrei de meus encontros com o pessoal do grupo Construindo Caminhos para a Análise de Políticas na Saúde, e do tempo que fui supervisionada pela querida Angela Arruda. Tempo em que conheci a Epistemologia da Complexidade de Edgar Morin e fiz uma pesquisa teórica sobre os afetos na Teoria das Representações Sociais de Sergi Moscovici. Tempo em que comecei a traçar essa preocupação com o lugar dos sentimentos, dos afetos e emoções nas pesquisas sociais. E agora, eis-me aqui, apaixonando-me pela Teoria do Cuidado ou Ética do Care das feministas. Ah gente, agora acho que faz todo sentido!

É hora de reler um pouco minhas próprias ideias, minhas produções passadas, e encarar um novo planejamento. Aliás, hoje mesmo, no Blogueiras Feministas, tem um relato meu, justamente sobre esse processo de formação e militância feminista! Ah nada é por acaso... ou tudo é o caos?