sexta-feira, 28 de junho de 2013

Você, mãe brasileira de classe média...

... queira me dar um minutinho de sua atenção!

Estou reformulando meus objetivos e consequentemente minha metodologia de pesquisa, e preciso da sua ajuda! (Se você é brasileira, tem um bebê de menos de um ano e mora no Brasil, na França, Portugal ou Suécia, por favor, acompanhe este post até o fim). 

Inicialmente, eu faria uma pesquisa comparativa com mães portuguesas, francesas e suecas, mas a conciliação de meus interesses pessoais e profissionais com as críticas e sugestões de meu supervisor francês fez-me desejar incluir as mães brasileiras no estudo. 

E depois, os últimos eventos no meu país - os protestos nas ruas e as movimentações nas redes sociais em torno de vários temas políticos importantes - fizeram-me repensar a "classe média brasileira". Eita conceito difícil de definir. Há várias formas de se distinguir as classes sociais no Brasil, de acordo com a renda per capita, ou incluindo padrões de consumo, bens e condições de moradia. Enfim, não há claramente um consenso sobre o que seria a classe média no meu país, mas há uma ideia bastante difundida de que ela cresce numa proporção muito maior do que qualquer outra faixa populacional. A chamada classe C (que seria a faixa de acesso à categoria da classe média) é a que mais cresce - ao mesmo tempo em que a extrema pobreza diminui drasticamente, caindo pela metade nos últimos 10 anos. E eu me arrisco a dizer que esse quadro tem consequências importantes para o bem estar social de todas as brasileiras, inclusive as de classes menos favorecidas.  

Os últimos eventos vem mostrando que essa população de classe média, (que está também ganhando maior acesso à educação e profissionalização), está se expandindo para as ruas, expressando suas vozes - diferentes vozes que, no entanto, tem algo em comum: a vontade de lutar por uma vida melhor ocupando a política. Sim, a política foi colocada não só como espaço dos podres poderes, mas como meio de saída, como caminho possível e desejável. Porque ir pra rua, com cartazes e bandeiras nas mãos é política, na sua expressão mais clássica! Mesmo aquelas vozes mais conservadoras que atravessaram as marchas e protestos com cartazes odiosos ou rasgando bandeiras de movimentos sociais estão cientes da necessidade de espaços públicos onde sejam escutadas. Sendo muito simplista, eu diria que o acesso a uma condição minimamente confortável de vida favorece que as pessoas se reúnam, se organizem, e saiam para as ruas fazendo suas reivindicações (ainda mais com as facilidades do mundo virtual!). 

Contudo, a ideia deste post não é discutir esses eventos, pois ainda há muita água pra rolar até que eu consiga chegar a uma conclusão sobre eles... Mas, é de recolocar a mulher brasileira de classe média como minha "sujeita de pesquisa", e de compreender se essa mudança pode realmente responder às minhas curiosidades. 

A gente sabe que o Brasil não oferece serviços públicos de acolhimento aos bebês de qualidade e com acesso universal. A gente sabe que isso constrange as famílias na hora de escolherem o que fazer com esse bebê: quem vai cuidar dele a maior parte do tempo? Quem vai ocupar seu tempo quase integralmente com as tarefas do cuidado, e em rebarba as tarefas domésticas? Quem vai abrir mão do trabalho remunerado durante um período (ou definitivamente) para dar conta desse novo membro da família? Quem vai se dividir entre trabalho remunerado e trabalho do cuidado? Num país onde não existem licenças parentais remuneradas (apenas para quem está trabalhando com carteira assinada e pode se ausentar de 4 a 6 meses, e a gente sabe que um bebê precisa de cuidadores por muito mais tempo), e onde não existem creches públicas compatíveis com os horários padronizados do mercado de trabalho, geralmente, quem se investe do papel de cuidadora é a mãe, é a mulher. Isso é influenciado não só pela ausência de serviços públicos, mas também pela desigualdade econômica entre homens e mulheres (já que elas costumam participar menos da renda familiar), e por valores sociais de família, maternidade, paternidade, que às vezes, imputam um dever "natural" sobre mulher. Eu imagino que a solução para esse problema não é apenas a construção de creches dentro dos padrões que já conhecemos (com poucos adultos e muitas crianças, gerenciadas por profissionais da educação, com pouca porosidade para a contribuição dos pais e pouca flexibilidade de horários). Eu acho que há muito mais o que se pensar até encontrarmos saídas coletivas para esses dilemas. E olhar para outros países, com políticas familiares muito diversas, e uma "presença social"* em torno do bebê bem diferente da que encontramos no Brasil, me parece ser um caminho interessante. Por isso, a vontade de olhar para Portugal, França e Suécia.

E então, eis algumas das minhas questões de pesquisa: diante das representações sociais no Brasil sobre a maternidade e da presença social em torno do primeiro ano de vida do bebê, como as mulheres que costumavam ter uma vida profissional ativa, depois de se tornarem mães, praticam o cuidado e empregam o tempo? Quais são as diferenças, no que tange às práticas de cuidado e ao emprego do tempo, entre as que estão inseridas em países com diferentes recursos coletivos? Quais escolhas elas fazem? Por que fazem? Estão satisfeitas com essas escolhas?

Um dos métodos que devo empregar para chegar nas respostas é a coleta de diários, que deverão ser contados em vídeo pelas mães participantes da pequena amostra que terei. A ideia é ter a maior diversidade possível de mães, com arranjos familiares e profissionais diversos, inclusive que não trabalhem fora, que não sejam casadas, que sejam lésbicas, transgêneros, mães adotivas, etc. Mas, que tenham uma condição sócio-econômica equivalente à classe média, que tenham a possibilidade de se questionar antes de tomarem decisões sobre o emprego de seu tempo diário.

Se você é mãe brasileira e está morando em Lisboa, Paris, Estocolmo ou Rio de Janeiro, e tem um primeiro/a filho/a de até um ano de idade, gostaria de me ajudar com esta pesquisa? Sua opinião sobre o percurso que o projeto está fazendo até agora é super importante! E se tiver disponibilidade e se encaixar no perfil da pesquisa, pode ser uma das minhas "sujeitas". O que acha? Então, se quiser, mande um e-mail pra mim: cfpbarros@gmail.com e vamos conversar! ; )  

Se você também é pesquisadora e se interessa por esse tema, vamos trocar figurinhas? O que acha de me ajudar na construção desse projeto?

Enfim, estou aberta às ideias, críticas, sugestões. E obrigada por ter chegado até o fim do texto e por acompanhar essa mãe, pesquisadora, feminista, que vos fala.

* Estou chamando de "presença social" os recursos coletivos, públicos ou privados, que são construídos para apoiar as pessoas em suas necessidades de cuidado. Ele é um conceito desenvolvido pelo professor Marc Bessin e outr@s, a partir da teoria sobre a questão social e a crise do cuidado, de Robert Castel.