quarta-feira, 10 de julho de 2013

Projetar uma pesquisa é permitir-se perguntar

Pra começar uma pesquisa eu preciso de uma pergunta, pelo menos uma. Depois, ela vai se desdobrando em várias outras e eu começo a ler, a procurar outras pessoas que tenham feito as mesmas questões ou ao menos parecidas. E começo a ver que algumas das minhas perguntas já foram satisfatoriamente respondidas. E começo a me concentrar naquelas que parecem mais complicadas e sem saída. E então, consigo identificar um problema de pesquisa e enfim delinear o meu projeto.

Foi nesse processo que descobri a intersecção entre maternidade e Feminismo. Se as minhas questões evidenciavam a necessidade de um olhar feminista sobre a maternidade, as minhas buscas me levaram ao vácuo - ou ao quase vácuo. Poucas feministas fazem pesquisa sobre ou com mães. E as que tem feito mais recentemente estão num campo de batalhas, esforçando-se por demonstrar a necessidade e importância dessa intersecção. Algumas não estão falando claramente de maternidade, mas voltam-se para a ética do cuidado (care), para as mulheres que desempenham o trabalho do cuidado, incluindo as mães. E elas tem sido mal interpretadas e mal recebidas em diferentes espaços feministas. Por quê?

Bem, surgiu então uma nova pergunta. Por que afinal é tão difícil mostrar a importância da maternidade enquanto "objeto" feminista (de pesquisa e de luta)?

Responder a isso não é o objetivo principal do meu projeto de pesquisa. Mas, para construir um projeto que responda às minhas curiosidades, essa questão secundária tem que ser considerada, e talvez tenha que ser respondida antes mesmo da minha entrada no campo. Pois senão, arrisco-me a reproduzir preconceitos e estereótipos que o próprio movimento feminista esconde.

E foi com essa preocupação que cheguei a Teoria Queer e as críticas à ela. No embalo de um Feminismo que não discutiu suficientemente o que seja "sexo feminino", "corpo feminino" e maternidade, o conceito de gênero acabou por desaguar numa teoria filosófica que, se tem muito à contribuir para uma visão crítica sobre o Feminismo, não tem muito a dizer sobre os constrangimentos reais vividos por pessoas reais que, ao longo da vida, incorporaram identidades e práticas informadas pelo "sexo" e pelo "corpo". Não dá pra colocar tudo no saco da "performance de gênero", a não ser no plano filosófico. Como li num texto da Emily Jeremiah numa das poucas revistas dedicadas à intersecção que pesquiso, há limites para a performatividade (enquanto escolha), quando você está diante de um bebê dependente - e acrescento: investida do papel de cuidadora, seja por opção seja por necessidade ou constrangimento. 

Então, apesar de me empolgar com as leituras que tenho feito de Judith Butler e outros autores brasileiros e estrangeiros que vão nessa linha do Feminismo "queer", sempre senti um incômodo com elas. Porque, de alguma forma, eu já intuía que essa abordagem invisibiliza a maternidade na sua vivência cotidiana, como "objeto" feminista. Da mesma forma que, tenho percebido a invisibilidade de pessoas transexuais nos espaços LGBT e transfeministas (e aqui falo de grupos transfeministas franceses que priorizam o gênero como performance).

As leituras que tem me ajudado nessa linha de reflexão são diversas e vem de dentro e de fora da Academia. Em especial, as maiores contribuições que tenho tido são das mães e de pessoas trans que não se identificam diretamente com os motes dos movimentos feministas "queer". Não são sempre contribuições teoricamente elaboradas. São narrativas em primeira pessoa que fazem referência à suas histórias pessoais, a como se sentem numa "sinuca de bico" quando, de um lado, tem que lidar com os constrangimentos dos papéis sociais atribuídos à elas, e por outro, não tem apoio para tornarem-se sujeitos de um Feminismo com suas demandas práticas. E foi assim que cheguei à Lalla Kowska Régnier com suas críticas fortíssimas ao movimento queer, sendo ela mesma uma ativista transexual. E foi assim também que cheguei à Sandra Laugier, uma filosofa que se diz feminista radical e que não tem nada a ver com o feminismo radical combatido por esse mesmo movimento. E foi assim também que cheguei à Elsa Dorlin, que bebe bastante das fontes anglo-saxônicas, que fala o tempo todo de interseccionalidades, que faz referências à Teoria Queer, e percebe suas limitações e potências quando o tema é racismo e pós-colonialismo (ela inclusive é autora de um dos textos do livro mais interessante organizado por Sandra, o Le Souci des Autres - veja que não há qualquer contradição em uma feminista interseccional que bebe da Teoria Queer contribuir com o livro de uma feminista que se afirma radical). E foi assim, inspirada por essas e outras fontes, que escrevi o post de ontem no Blogueiras Feministas, o texto Gênero e feminismos: palavras de mulher trans cisgênera heterossexual.

Então, sim. Um projeto é um empreendimento em constante construção. É algo sempre aberto, inacabado, e ao mesmo tempo, precisa ser coerente. Por isso, não pretendo ser "dona da verdade" ou dar a última palavra acerca de nada. Preciso ouvir sempre, ler mais, repensar minhas próprias impressões e incômodos. E diante de demandas que pretendem me pressionar a assumir uma posição polarizada e fechada (afinal, você é contra ou a favor da Teoria Queer? Afinal, você é contra ou a favor do Transfeminismo? Da onde vem as suas fontes? Quem é você para afirmar isso ou aquilo sobre pessoas trans? E suas variações...), eu simplesmente me permito escutá-las e mostra-las que o que faço é uma construção de ideias a partir da minha vida, das minhas curiosidades, de um olhar sensível pra dentro de mim e para as vozes "subalternas" que me rodeiam.