sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A couvade e as patologias familiares do nosso tempo

A couvade é um ritual antigo, comum entre diferentes povos no mundo, inclusive em sociedades rurais francesas, canadenses, na Nova Guiné, entre povos africanos e indígenas latino-americanos, que foi identificado pela antropologia no século XIX e depois transformado em patologia pela medicina higienista.

Segundo diferentes hábitos entre homens de diferentes grupos, o pai de um bebê que está a caminho do mundo, deve performizar o parto, permanecendo sob os cuidados de outros homens, enquanto "sente" as dores das contrações, chora, grita, dança de emoção, enquanto a mãe está no processo de dar à luz num ambiente separado. Em alguns povos, o pai permanece acamado, descansando, depois do nascimento, durante dez dias ou mais, como se cumprisse o resguardo. Antes, ele retira sua roupa para envolver o recém-nascido, mostrando simbolicamente seu envolvimento nesse momento especial.

Nesses povos, a fertilidade é celebrada por toda a comunidade, e os cuidados com o bebê são assumidos coletivamente, e mais diretamente pelas mulheres. Por isso, tanto a mãe quanto o pai da criança recém-parida podem permanecer num isolamento moderado, em resguardo, enquanto as demais pessoas se ocupam dos cuidados indiretos com o bebê, buscando alimento, arrumando espaço, dando banhos, vigiando. Geralmente, os homens se ocupam da segurança e da provisão, enquanto as mulheres oferecem um cuidado mais próximo. No entanto, toda a comunidade se orienta ao nascimento do novo membro, durante os primeiros dias.

Achei interessante saber disso logo depois de ler um texto sobre a teoria de Winnicott acerca da "confiança" no desenvolvimento infantil. A confiança é fundamental para que o bebê comece a expressar a criatividade e a agressividade, características que são cruciais para uma subjetividade saudável e uma sociedade democrática. Gosto dessa ideia. Mas, Winnicott sempre se refere à mãe como aquela capaz e incubida da tarefa de criar um ambiente estável e assim confiável ao bebê. É no contato com o corpo da mãe, é na criação de hábitos corporais do binômio mãe-bebê, que esse ambiente é assegurado. E eu fiquei pensando em como esperar que uma mulher, antes imersa em outras atividades e outro ritmo, consiga reproduzir hábitos corporais rotineiros suficientes para cumprir com as demandas do início da vida. Enquanto um sujeito começa a existir, a outra já existia com seus repertórios próprios, suas necessidades e carências. A outra já tem seu próprio cansaço. Acaba de viver um momento explosivo, fisiologicamente e emocionalmente. Acaba de entrar num universo de significados culturais que a pressionam a ser algo diferente daquilo que estava acostumada... 

O universo da maternidade, nas sociedades patriarcais ocidentais, não parte da valorização da fertilidade. A sexualidade é reprimida no interior da família, porque enquanto a religião cristã afirma a família como sagrada, insinua que o sexo é pecado. Enquanto os médicos pagãos afirmavam que a gravidez só ocorreria se a mulher tivesse prazer na relação sexual, os médicos modernos passaram a olhar a sexualidade e a gravidez pelos riscos que ofereciam. Então, além de tudo, a mãe que acaba de dar à luz sofre uma onda de pressões e expectativas acerca de sua capacidade e obrigatoriedade de cuidar cientificamente e religiosamente bem, do bebê.

Então, quando um homem ocidental expressa tal empatia com a gravidez, o parto e o pós-parto da mulher, ele é diagnosticado com a versão moderna da "couvade". Ele é diagnosticado como se estivesse vivendo uma gravidez psicológica, uma doença psicossomática, uma depressão pós-parto masculina. Eu entendo que seja essa a ótica mais óbvia numa sociedade onde não podemos parar para respirar. Onde o corpo grávido e o ritmo do recém-nascido não são tolerados em vias públicas, onde família se traduz em núcleo original de consumo. 

Os parentes mais próximos se preocupam em saber o sexo do bebê não para adentrá-lo na organização comunitária da "tribo", não para atribui-lo determinadas funções na proteção da natureza, não para já assimilá-lo como sujeito, mas para comprar o presente generificado, a marca do consumo, a marca da ostentação. Se for menina, melhor ainda! As avós se encarregam de comprar ainda mais e de marcar ainda mais a diferenciação - tantos são os produtos inventados e derivados dela. As visitas na maternidade e na casa dos que estão se tornando pais não são exatamente prestativas. Geralmente, são ostensivas, cheias de máquinas para se retratar o momento, para se furar a orelha da menina de menos de sete dias de vida, para se mostrar o quanto "ela é bonita!" ou o quanto "ele é fofo!". E aí vai seguir uma compulsão por doar brinquedos, roupas, apetrechos, trecos e mais trecos - novíssimos e importados. E vai se seguir uma série de críticas, piadas e caras de desapontamento se os novos pais assumem uma forma mais simples de receber a criança, sem berços altamente elaborados, sem babá eletrônica, sem mamadeiras, chupetas, lacinhos, lencinhos, dvd's e joguinhos que estimulam a inteligência precoce... E as mesmas caras surpresas apareceriam se o homem do casal resolvesse parar de trabalhar para assumir o posto de cuidador principal. 

Numa sociedade onde a palavra comunidade ficou quase restrita às áreas mais pobres e carentes de políticas públicas, é de se compreender que a couvade tenha virado doença e que os rituais ligados ao nascimento tenham sido invadidos pelo poder do mercado, pelas mãos misóginas de médicos violentos, pelo reinado da generificação - eu desconfio que, apesar das tribos indígenas terem funções sociais muito específicas para homens e mulheres, as marcas da diferenciação não são tão abundantes, podendo os indivíduos circularem entre variadas tarefas necessárias para a comunidade.

Longe de defender um retorno saudosístico ao matriarcado ou as comunidades ancestrais, eu tento entender como uma teoria tão interessante acerca da confiança no ambiente acabou recaindo quase exclusivamente sobre o corpo das mães biológicas. Ao invés de pressionar pela formação de uma sociedade mais atenta ao desenvolvimento dos seres humanos, ela acabou produzindo uma série de discursos culpabilizadores, que demandam das mulheres ritmos de vida esquizofrênicos. 

Esquizofrenia, aliás, é outra patologia do nosso tempo. Talvez uma forma complexa e dolorosa de responder a uma humanidade pouco respeitosa aos ciclos humanos... Não dá pra esquecer que Winnicott produziu suas ideias no áuge da segunda guerra mundial, e no pós-guerra de uma Inglaterra industrializada e deprimida, atendendo a crianças destituídas de cuidados parentais e mal assumidas pela "comunidade" de cuidadores profissionais de orfanatos e creches públicas. Certamente, ele influenciou essas instituições a serem mais "humanas". Mas, de maneira geral, sua ideia genial não superou os ambientes feminizados, as profissões mais exercidas pelas mulheres. 

A couvade foi interpretada, então, como uma forma bizarra e selvagem de "comprovar a paternidade" - segundo a explicação de Dr. Mourel em 1884. Com os olhos iluminados pela epistemologia patriarcal, ele não podia entender que o ritual estava conectado a transformação do homem num cuidador, e à representação do nascimento como um ato de passagem para toda a comunidade. Certo... Essa é minha interpretação tardia... Não há nada que a possa comprovar. Mas eu teria ficado muito mais animada se, nas minhas pesquisas, tivesse me deparado com uma ideia moderna da couvade longe da patologização...

* usei como referências para esta postagem os seguintes textos: 
- Histoire des mères et de la maternité en occident, de Yvonne Knibiehler
- Reflexões sobre confiança e hábito em D.W. Winnicott e J. Dewey, de Pedro Salem
- De la couvade, de Docteur E. Mourel