segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Honestidade intelectual: o balé triunfante entre ciência e ativismo feminista

Em tempos de proliferação de novos “ismos” e “fobias”, a velocidade das trocas entre ciência e movimentos sociais foge da minha capacidade de compreender seus rastros históricos e conceituais. Ideias que surgiram das ruminações iluminadas nos corredores da filosofia contemporânea – especialmente norte-americana – são codificadas em neologismos facebuquianos que desafiam sépticos e ensaístas da realidade. Na tentativa de impor mudanças concretas no dia a dia das novas categorias de “oprimidos”, há um ciberativismo que muda os usos que fazemos da linguagem generificada, e que, assim, se esforça por uma forma neutra, mas não usual, de se comunicar. Uma forma que, em última instância, não evidencie diferenças entre homens e mulheres e não escancare um sujeito óbvio para o Feminismo contemporâneo.
Portanto, pesquisadoras feministas, como eu, bailam entre uma dimensão e outra: entre as elucubrações de mentes afetadas pela desigualdade, mas privilegiadas pela oportunidade de pensar sem se preocupar com a falta de casa, comida e roupa lavada, e as demandas mais materialistas das mulheres em desvantagem – que, em alguns grupos, passam a ser codificadas por essa nova linguagem. A minha vontade de ensaiar sobre a honestidade intelectual inserida nesse balé não vem da exigência de uma neutralidade científica, mas da tentativa cansada de elaborar as novas bandeiras que têm sido apresentadas para o movimento do qual faço parte. “Eu corro pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores...”.
Quando os primeiros estudos feministas se impuseram no ambiente acadêmico foram criticados de não serem ideologicamente neutros. Apesar disso, as linhas de Estudos Feministas se desenvolveram transversalmente a várias disciplinas. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Antropologia Social foi uma das mais abertas a esses estudos inovadores, com os quais as pesquisadoras se apropriavam de teorias e conceitos sociológicos enquanto faziam etnografias e pesquisa-ação. Talvez, para elas, a crise existencial fosse sobre o lugar a ocupar numa academia majoritariamente masculina, machista em muitos termos, e resistente aos temas da vida doméstica. Era a época de uma ciência que privilegiava as dicotomias, que enfatizava a pertença dos homens à esfera pública; enquanto às mulheres (mais precisamente, às mães) caberia aplicar na vida privada e familiar o conhecimento adquirido com a educação formal, recentemente conquistada pela primeira geração de feministas.
Mas, as etnografias curiosas e a pesquisa-ação de mulheres engajadas na desmistificação dos problemas “privados” foram fundamentais na aproximação da Academia com os movimentos sociais. Tal casamento acompanhou uma renovação paradigmática mais ampla: em campos distintos, muitos pesquisadores e filósofos vinham criticando o Positivismo – essa epistemologia tentadora e persistente que é credora do Cartesianismo. Michel Foucault na Filosofia, Antonio Damásio nas Neurociências, Francisco Varela nas Ciências Cognitivas, Edgar Morin nas Ciências Sociais, Paulo Freire na Pedagogia foram alguns dos célebres pensadores que aproveitaram a onda da ciência crítica. Ao mesmo tempo, movimentos como a Reforma Sanitária, a Pedagogia da Libertação, a Luta Antimanicomial e o Feminismo, no Brasil, promoveram a aproximação cada vez maior entre pesquisa científica e políticas públicas.
As políticas públicas começaram a ser mais influenciadas por pesquisas sociais nas décadas de 1980 e 1990, e vimos crescer em muitos países o Feminismo de Estado ou Feminismo Institucional. Paradoxalmente, uma tendência de despolitização dos estudos feministas foi crescendo, devido à relação com os Estados Nacionais e as Organizações Não Governamentais – e talvez, como resposta às exigências de objetividade da Academia. Isso significa que o Feminismo Acadêmico acabou se afastando consideravelmente do ativismo, recorrendo à estatística e ao universalismo que dela deriva para alimentar a formulação de leis e políticas públicas. Era a época das políticas sociais universalistas.
Recentemente, porém, temos observado debates intensos e esforços difusos pela continuidade da renovação paradigmática feminista. Essa onda inclui novos focos de pesquisa relacionados à realidade de diferentes grupos e identidades, assim como uma proliferação de conceitos que tentam superar as dicotomias herdadas do Positivismo. Os novos “ismos” são independentes e se inter-relacionam, mas, argumentam, não podem ser subsumidos no antigo conceito de “patriarcado” – senão, correm o risco de serem invisibilizados.  Dar visibilidade a todas as formas de “opressão” se torna uma estratégia usual do ciberativismo feminista, onde grupos não muito numerosos conseguem ter voz.
Assim, a “Mulher” enquanto sujeito universal é artigo em risco de extinção, ainda que resista na agenda estatal e na cultura geral, porque “Mulher” tem sido traduzida recorrentemente como aquela que é branca, heterossexual, de classe média e privilegiada em todos os sentidos – dentro desse ativismo. Mas, vamos com calma. Mesmo essa ainda sofre das desigualdades sociais denunciadas e combatidas pelo Feminismo de Estado: a violência doméstica, a violência obstétrica, a dependência econômica, a sobrecarga com o trabalho doméstico e a exploração do trabalho sexual, enfim. Deve ser por isso que a Secretaria ainda é da Mulher, a política é da Mulher, a saúde ainda é da Mulher, a revista é Feminina, o desejo é Feminino, a moda é Feminina... Mas o diálogo entre ativismo, política e academia parece sofrer uma nova metamorfose. É o tempo das políticas sociais focalizadas – que alguns diriam, neoliberais.
Hoje, não podemos ser acusadas de desonestidade intelectual por conciliar ciência e política – é consenso científico que toda questão que move uma pesquisa vem de um ambiente próprio e, portanto, nunca é “pura” de interesses. Por outro lado, vivemos tempos de alta cobrança de produção de artigos especializados, para a alimentação de agendas institucionais e para responder às demandas do jornalismo científico. Hoje, corremos o risco de não prezar pela honestidade intelectual por causa da velocidade. A velocidade com a qual as informações circulam na Internet e a sensação de se viver num mundo supostamente globalizado podem pressionar excessivamente pesquisadores engajados, feministas ou não. Nesse novo ritmo, recebemos muito mais notícias de países anglofônicos do que de nossos vizinhos latino-americanos. Sabemos mais rapidamente dos resultados de pesquisas que vem desses países, naturalizamos seus conceitos, ignoramos seus impactos. A capacidade de incorporação dessas informações pelo ciberativismo é imensa. E as demandas que ele coloca para as pesquisadoras feministas é intensa. Mas, temos pouco tempo para refletir, debater, ler, estudar.
Eu não tenho tempo de compreender os neologismos que caem da filosofia pós-gênero americana nos colos dos ciberativistas. Esse é um fenômeno excepcional, tendo em vista que conceitos “ultrapassados” como “luta de classes” ainda não são consensuais entre militantes e acadêmicos das antigas, mas palavras como “binarismo” e “transfobia” são facilmente usadas e transmitidas via blogs, vlogs, asks e twitters. Enfim, parece que a nova onda filosófica está movendo uma nova gramática feminista. E eu estou tentando me movimentar sem perder o timing.
Mesmo sem entender tudo desse universo “novo”, não posso parar e me fechar num asilo intelectual. E, como pesquisadora, não posso simplesmente incorporar os neologismos, sem ter consciência de sua aplicabilidade. Quero continuar a pesquisar e a fazer o diálogo entre ciência e ativismo, sem cair na tentação da desonestidade intelectual ou da ingenuidade política. O que fazer?
O artigo agora se tornará um pouco normativo, e eu me perdoo por isso, já que é em nome de uma causa nobre.
Então, o primeiro ponto que me parece importante para evitar a desonestidade, enquanto acadêmica feminista, é o da escolha do projeto epistemológico. Afirmar uma pesquisa feminista significa uma forma inovadora de se fazer ciência – um paradigma revolucionário. Para Carol Gilligan, o patriarcado nada mais é do que um paradigma injusto de mundo, que antagoniza homens e mulheres, dividindo-os em polos, hierarquizando-os e distribuindo privilégios vistos como “naturais”. A ciência patriarcal positivista valoriza a razão em detrimento dos afetos e a objetividade em detrimento da subjetividade. Porém, Gilligan e outras feministas reivindicam que se valorize a racionalidade implicada nas categorias sociais consideradas subalternas, porque afetos e razão não são antagônicos. Assim, uma pesquisadora que pretende fazer ciência e ativismo feminista com honestidade intelectual deve privilegiar um paradigma epistemológico revolucionário, e deixa-lo claro para seus leitores.
Em segundo lugar, afirmar-me uma pesquisadora feminista significa que escolhi um objeto inserido na dimensão política desse grande movimento. Ou seja, as minhas questões surgem do reconhecimento desse movimento e do que parece importante para seu avanço. Isso implica então em conhecer a História do Feminismo e dos grupos que dialogam com ele transversalmente. Esse conhecimento não se dá, porém, de forma passiva, mas autocrítica, identificando outras vozes, múltiplas vozes, que se abrigam sob o guarda-chuva “Mulher” e que por vezes ficam invisibilizadas numa universalidade. Este esforço de encontrar recortes de estudo que não mascarem a multiplicidade do movimento é o que podemos chamar de radicalização do Feminismo – que significa, na dimensão do ativismo, o esforço de radicalização da democracia.
Esse ponto é especialmente crítico para uma prática honesta, porque não é incomum vermos afirmações que opõem novos conceitos feministas aos antigos, como a dicotomia renovada entre corpo e mente ou natureza e cultura, em se privilegiando o conceito de “gênero” em detrimento de “sexo” e vice-versa. Como bem apontou Gisela Bock, ao invés de opor essas categorias de análise ou eliminar o “sexo” como se bastasse falar de “gênero”, precisamos discutir como elas se complementam e como elas se ligam, historicamente. Porém, temos de um lado, algumas Feministas Radicais e Ecofeministas acadêmicas resistindo à participação de mulheres trans nos grupos ativistas, baseando-se na definição genital de “Mulher” – recuperando, portanto, a antiga e ainda não vencida epistemologia patriarcal. De outro, temos acadêmicas Transfeministas que pretendem renovar o Feminismo pela defesa da supremacia do desejo, baseando-se na Teoria Queer, e arriscando-se a invisibilizar a desigualdade estrutural entre pessoas do sexo feminino e pessoas do sexo masculino, e a não considerar as diferenças de percurso entre pessoas transgêneras, transexuais e não-binárias.
Essas disputas conceituais não serão tão acirradas se compreendermos que os recortes de pesquisa são limitados e não podem ser traduzidos como verdades absolutas e universais, principalmente quando transferidos para o ativismo. Como pesquisadora, devo reconhecer que a minha voz não representa a muitas outras que ainda não tem a mesma proporção de expectadores – que não tem a garantia de um lugar na democracia. Essa desigualdade, ainda que reconhecida, não pode, contudo, ser solucionada pela disputa polarizada nos ambientes acadêmicos e nos movimentos sociais. Isso quer dizer que a apropriação de abordagens específicas, como a Teoria Queer e o Ecofeminismo, não deve descartar o lugar de diferentes experiências de gênero e sexualidades, que escapam a seus cânones teóricos.
Podemos reconhecer especificidades de pesquisa que não são necessariamente excludentes. Uma pesquisadora feminista radical pode se focar na socialização patriarcal pela qual as meninas com genital feminino passam, sem que isso desqualifique pesquisas sobre mulheres e homens que fazem operação de redesignação genital e/ou terapia hormonal. Da mesma forma, é possível discutir a performatividade de gênero das pessoas trans ou não trans, reconhecendo que as identidades sociais “feminina”, “masculina”, e “não-binária” são culturalmente compartilhadas e individualmente sentidas. Filosofar não significa criar uma explicação coerente para tudo, antes, é questionar, colocar questões onde parece não caber mais dúvidas. De fato, esse exercício pode incomodar, gerar debates acalorados, e promover mudanças linguísticas interessantes (ou não). Mas, a realidade não pode ser contida num quadro conceitual, numa tela filosófica única. Então, não posso exigir dos outros que adotem as minhas palavras, os meus neologismos, as minhas lentes de opressão. Tenho que evitar que minhas ideias sirvam para a fabricação de novas dicotomias.
A tentação, porém, de se recorrer a essa fabricação é grande. É tentador adotar uma explicação que sintetize a origem de todas as formas de opressão – o que a filosofia queer de Judith Butler faz, talvez sem anunciar, explicando as desigualdades de gênero pela existência de uma ordem heternormativa “anterior” aos sexos. Apesar de toda a potência dessa filosofia, críticas sobre seu potencial imperialista têm sido levantadas. Lalla Kowska-Régnier, ativista transexual, também critica o movimento queer porque, na prática, a priorização da ideia de gênero como performatividade diminui as experiências materiais das pessoas que querem fazer terapia hormonal ou cirurgia de mudança de sexo – colocando-as não raramente como fruto da heteronormatividade, uma ordem a ser combatida. Lalla considera que a relação entre corpo e escolha de gênero pode ser diversa e não deve ser restrita por uma identidade política pré-determinada, advogando assim uma relação autônoma e dialógica com os movimentos feministas e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). Também, o historiador árabe Joseph Massad tem apontado a “fabricação” americana da identidade “gay árabe” e dos Estados árabes como “inimigos” dos gays a partir das defesas de um movimento queer globalizado. De forma bastante contundente o pesquisador mostrou o esforço de alguns historiadores anglo-saxônicos para produzir conclusões que corroborassem a existência “natural” de uma identidade queer em todo o globo, sem considerar estudos sobre gênero e sexualidade desenvolvidos anteriormente por pesquisadores árabes e configurando uma visão unilateral, sem, contudo, reconhecer a limitação de seu recorte.
Por outro lado, no Brasil, Débora Diniz, confrontada com as demandas do ciberativismo, em entrevista para o site Blogueiras Feministas, não se constrangeu ao afirmar as limitações de suas escolhas e conclusões de pesquisa. Apesar do amplo interesse, que vai da saúde no parto e gestação até saúde mental e transgeneridade, a pesquisadora feminista deixou clara sua necessidade de fazer recortes, mas também, o reconhecimento de outros enfoques que podem ser desenvolvidos por outras pessoas. Dessa maneira, ela tem contribuído para a construção de políticas na área de gênero relacionadas aos direitos reprodutivos, que são geralmente baseadas no percurso de mulheres heterossexuais, mas que, ao mesmo tempo, permitem o diálogo com grupos minoritários.
Na Saúde Pública, a militância por políticas universalistas produziu a criação de políticas para as mulheres que favoreceram principalmente as mais pobres. São políticas baseadas numa concepção essencialista da identidade feminina, porque partem do reconhecimento do percurso reprodutivo e pretendem combater as doenças e mortes mais comuns na gestação, parto e no aborto inseguro. Mesmo assim, justamente por partir da identificação de necessidades específicas do corpo reprodutivo, esse tipo de abordagem permite a inclusão de homens transgêneros que podem engravidar – o que tem sido pouco discutido pelo movimento feminista. Parece que um dos maiores desafios à democratização e melhoria dos serviços públicos de saúde tem sido o crescimento de um mercado privado de saúde beneficiado por investimentos públicos, e não a adoção de “mulher” como grande guarda-chuva identitário. Nessa área, em especial, uma abordagem de pesquisa que privilegie a concepção de gênero como desejo, provavelmente não contribuirá tanto para a militância, em especial para a descriminalização do aborto e o acesso ao parto humanizado. Ainda acredito que alimentar políticas de saúde que se baseiam no percurso reprodutivo da “maioria” não impede que caminhemos na desconstrução das normas culturais de gênero relacionadas à maternidade e à sexualidade, por exemplo.

Concluo, assim, que a honestidade intelectual é necessária para o progresso da renovação paradigmática do feminismo e é uma estratégia potente para o alargamento da democracia. Ela favorece diálogos e embates mais claros e facilita a identificação das relações de poder que se instalam na própria academia. Usar conceitos de fora da Teoria Queer e não adotar uma estratégia que emana de determinada teoria não é em si transfobia. Pensar no gênero como performatividade, dentro de um recorte específico, também não é um desfavor ao movimento feminista como algumas mais radicais tem divulgado. Se eu me acostumar a olhar o mundo pela minha tela, sem me esforçar por “entender o que meu irmão ouve”, ficarei isolada no asilo que mencionei. Mas, se eu me apropriar acriticamente de seus neologismos e suas filosofias, não serei honesta. Então, façamos um trato. Um trato pela continuidade desse balé necessário e potente entre espaços acadêmicos, virtuais, associativos, políticos. E viva os “ismos” que contarão a História.