segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Das mães para a ciência: o que elas tem a dizer e o que eu tenho a fazer

Na semana passada tive que apresentar o andamento de meu projeto de tese, num seminário em Paris. Fui avisada meio em cima da hora de que deveria cumprir com essa tarefa e confesso que fiquei muito estressada. Não foi a primeira vez que me convocaram a explicar como gastei meu tempo (e meu financiamento) no primeiro ano de doutorado, mas não tem jeito. Cada vez que isso acontece, entro na maior tensão! Não é que eu não me sinta preparada, não. Eu tenho muita consciência de que ralei bastante. Principalmente porque o cansaço no corpo e na cabeça não me deixam esquecer. Mas, fazer uma retrospectiva é sempre um exercício que demanda concentração e paciência: um pouco de concentração sobre o que selecionar para contar e muita paciência comigo mesma porque tenho que encarar as minhas limitações em cumprir as metas que eu mesma me dei.

E eu fiz. Escrevi (em francês, o que ainda é um desafio maior pra mim) cerca de oito páginas contando, do início ao momento atual, tudo o que já pensei e projetei para essa pesquisa - aproveitei e contei também sobre as minhas publicações que saíram nesse período, um artigo científico e meu livro A Mãe e o tempo. Li para algumas pessoas e uma professora muito interessada, esse meu exercício de reavaliação, e recebi feedbacks positivos e algumas sugestões críticas. As sugestões tem a ver com as metas que não cumpri, que tem a ver com as dificuldades que tenho tido para começar efetivamente minha pesquisa de campo, que tem a ver com os objetivos desafiadores que desenvolvi. Aprofundei muito minhas reflexões teóricas, mas caminhei bem pouco no contato efetivo com as realidades das mães brasileiras.

Normalmente, quando alguém se aventura a pesquisar a maternidade, parte de algum contato institucional, como creches, escolas, consultórios obstétricos e pediátricos, enfim. Dessa forma, é mais fácil encontrar as "sujeitas de pesquisa", organizar encontros com elas, e botar a pesquisa na rua. Geralmente, as pessoas fazem o caminho inverso do que eu tenho tentado: conversam com os especialistas e profissionais da maternidade e depois escutam as vozes das mães. Mas, eu escolhi outra coisa, que me parece mais interessante, porém, muito mais difícil. Escolhi priorizar o contato direto com as minhas sujeitas de pesquisa, e evitar assim algum viés que seja produzido pela instituição ou profissional mediador/a. Claro que isso não me isenta de produzir os vieses que virão, mas me ajuda a produzir exatamente o que espero: narrativas maternas não ou pouco engajadas em determinadas organizações. Se as mães da minha pesquisa precisarem desabafar sobre algum mal estar gerado no contato com certos serviços, elas não precisarão temer como esses serviços receberão suas críticas - porque eu não tenho vínculo algum com eles e portanto não devo retorno algum para eles. Se elas quiserem elogiar seus obstetras, pediatras, psicólogas, enfim, também o farão de forma espontânea, porque o ponto de partida para nossa conversa não será a minha relação direta ou indireta com esses profissionais. É por isso, principalmente, que ainda não procurei nenhuma instituição de referência que fizesse as pontes entre eu, pesquisadora curiosa e com prazos curtos para cumprir, e minhas sujeitas de pesquisa, mulheres que assim como eu estão respondendo a diversas demandas do dia dia e nem sempre tem tempo e disponibilidade para me contar como anda a vida...

Então, ainda não consegui entrevistar efetivamente ninguém... Divulguei a pesquisa em redes sociais, e recebi contatos de algumas voluntárias. Mas, quase todas estão de alguma forma fora do perfil que decidi selecionar. Ou tem mais de uma criança ou a criança tem mais idade do que eu esperava...  

Minha ideia agora é mudar um pouco o perfil e a estratégia, mas mantendo o objetivo de fazer o contato direto com as mães, mediado apenas por esse mundo virtual e suas ferramentas (outro capítulo que terei que abordar na tese, para responder as críticas de professores mais acostumados as formas clássicas de pesquisar. A Internet abre tantas possibilidades e ao mesmo tempo ainda é pouco explorada pela academia). Vou começar então com uma pesquisa exploratória para conhecer melhor aquelas que já se ofereceram para participar mas que fogem ao perfil que eu tinha idealizado. Vou começar a formar grupos por país, ou seja, um grupo de mães que moram no Brasil, outro de mães que moram na Suécia, outro com as da França e outro com as que vivem em Portugal, e encontrá-los por videoconferências. E ao mesmo tempo, continuarei procurando as sujeitas que cabem certinho naquele perfil inicial, de ter apenas um/a filho/a de até um ano nascido/a num desses países. 

Aos grupos focais, seguirei com entrevistas focadas nas histórias de algumas dessas mães, especialmente sobre como chegaram no país onde vivem e como a maternidade aconteceu em suas vidas. E depois, farei a parte mais inovadora dessa metodologia incomum: os diários. Àquelas que tem bebês pequenos em casa, pedirei que gravem diários pessoais, no sossego (se possível) de seus lares, contando um pouco de suas rotinas, temporalidades e sentimentos.

Enfim, o meu percurso com essa pesquisa tem várias peculiaridades, que eu espero que sejam o meu forte e não a minha fragilidade. Tenho feito um esforço especial para manter a proximidade entre a Carolina mãe, blogueira, escritora, com a Carolina estudante e pesquisadora. Quero transpassar o muro duro e frio da academia, fazendo um diálogo rico entre vida real e vida reificada (como dizia uma professora de psicologia muito querida). Como tenho dito, sou uma caminhante do "entre".