quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Do tempo e da geografia da produção científica

Estou adiando uma tarefa urgente e importante. 

Tenho que recontar com olhos novos o que vi e vivi ao fazer uma pesquisa de campo em mais de mil residências de idosos na Tijuca, Vila Isabel e adjacências - bairros com os quais tenho uma relação ambivalente desde pequenininha. A forma como nos recebiam (e não recebiam), a forma como as portarias serviam de blindagem ou amigável recepção... A forma como os familiares eram presentificados e/ou totalmente ausentes. A falta e a presença de recursos para se locomover, sorrir, abrir a porta e fechá-la atrás de nós. Uma experiências fantástica e banal. Um ano de crescimento profissional e pessoal. 

Ah 2007/2008... A virada na qual conheci Paris, pessoalmente! A virada em que fui terrivelmente sacaneada por uma dupla de mocinhos machistas tijucanos... em Paris. Quando conheci de frente o machismo refinado e me senti desamparada. Quando conheci Évora, e desisti do mestrado europeu. Quando senti saudades infinitas do meu amor e melhor amigo. 

Quando senti o gostinho de liberdade solitária e testemunhei a solidão forçada de gente que viveu tantas aventuras. Foi o tempo em que, ao refletir profundamente sobre essas realidades, fui impactada com a notícia da gravidez. E o projeto de estudar envelhecimento e cidadania no doutorado foi substituído pela maternagem, o mergulho profundo na maternidade. Que enfim, resultou num projeto de doutorado focado ainda no cuidado familiar. Falando de vida, falamos de nascer, crescer, e envelhecer. Mãos a obra, de novo!

O tempo da produção científica é assim. Às vezes, muito raramente, estudamos, pesquisamos, publicamos, em pouco tempo. Noutras, esperamos. Esperamos a longa pesquisa que conta com diferentes olhares, braços e métodos, terminar. Então, esperamos os primeiros resultados. A primeira e principal publicação. Esperamos a nossa vez, o nosso chamado. E com isso, um tempo de mudanças e permanências se desenrola. Fiquei feliz com a lembrança da minha participação e o convite para o próximo artigo. Minhas mãos contarão como foi e por que foi que fizemos a pesquisa de campo assim e assim e não assado. Gosto disso. Agora, estarei munida de mais ferramentas para analisar aquilo que passou... Por que selecionamos entrevistadoras e não entrevistadores? Por que excluímos da amostra as residências categorizadas como subnormais? Gênero, violência, classe social. 

Falando de pesquisa, falamos também de proximidades e distanciamentos.