terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"O que você faz enquanto corre?"

Quatro dias sem correr. Uma noite de insônia no fim de semana e devo a ela esse intervalo no meu mais novo hábito. Mas, hoje, num dia ensolarado, depois de uma semana de chuva e de um dia intenso de entrevistas com as mães que participam da minha pesquisa, resolvi sair. Saí de um jeito diferente: sem relógio e com uma câmera digital. 

Comecei a correr, ouvindo o som dos pássaros, que nesse período ficam mais tempo no jardim, fazendo seus ninhos e todo o ritual de reprodução. Há diferentes espécies e eu gosto muito de observá-las. Na verdade, eu gosto mesmo é de senti-las. Sentir sua presença enquanto corro. É gostoso. É uma empatia. Sinto os pássaros vivos ao meu redor, e então sinto vontade de participar de seu coro. Mantenho o ritmo da minha respiração e dos meus passos na terra úmida. 

A brincadeira começou então quando percebi os primeiros anfitriões e parei uns segundos para fotografá-los. Corri mais um pouco. Parei mais um pouco. A ideia era manter o ritmo e a atenção fluante do chão para as raízes e arbustos, deles para os troncos e para as copas altas e nuas, procurando-os. Corvos, lindos e negros e solitários e escandalosos. Sempre no alto das árvores mais altas e mais peladas. E passarinhos simpáticos, nada tímidos, de uma espécie que eu já tinha visto e fotografado em Lisboa

Depois, inúmeras tentativas de captar um melro. Incrível como eles sentem a minha presença quando paro para observá-los. Eles fogem, rapidinho, e me deixam deslumbrada com sua simplicidade. Não sei exatamente porque amo os melros. Eles passam pertinho quando corro, mas quando paro, me percebem. 

Comecei então a me concentrar em meu próprio ritmo e aos sons que ele reproduz. Decidi correr mais. Corri com força, com mais velocidade. Senti o corpo querendo parar, mas eu tinha que continuar. Queria sentir como meu corpo pode se manter nessa continuidade, como ele pode perceber as repetições e pequenas variações de fora e de dentro. Tive que me esforçar para continuar. "Não vou aguentar!". É imediatamente a frase que se repete. 

"Quando foi mesmo que ouvi a mesma coisa? Quando foi que eu disse isso repetidamente diante de um caminho inevitável?" Meu parto. Lembrei das contrações no parto e aquele momento em que você já está no limite do seu corpo sem querer interromper o fluxo da natureza. Eu faço parte dessa natureza, e eu tenho que continuar. Sorri por dentro, pensando nessa reviravolta interna enquanto minha atenção permanecia flutuante, entre a paisagem e as pequenas variações que cantavam ao meu lado. Adorei ver os melros tão de perto, e lamentei não poder pegar a câmera e captá-los. Paradoxo.

"O que você faz enquanto corre?" "O que você faz enquanto mantém o esforço para manter a continuidade?" Essas questões me fizeram lembrar das vozes das mulheres que tenho entrevistado. "O que você faz enquanto está presente?" - é uma das perguntas mais importantes da minha pesquisa. Pergunta que não faço diretamente, mas que está no pano de fundo de tudo. 

Quando cuidam, elas estão criando um ritmo, acompanhando o ritmo de outra pessoa que não está nem aí pra elas... ou que ainda não se dá conta de quem elas são. São como pequenos melros. O que importa é a permanência, é o hábito de se encontrarem, nas trocas de fraldas, nas mamadas, no banho. Essas mulheres me contam seus diários, e geralmente começam a dizer "Não fizemos nada diferente. Foi a mesma rotina de sempre". Uma delas, com uma bebê recém-nascida, lembrou do filme "Feitiço do tempo" e do personagem que repete ao longo do filme o mesmo script. Quando cuidamos estamos então sob um feitiço que nos envolve na natureza, na capacidade da natureza em se reproduzir. Mas, estar presente e, de certa forma, enfeitiçada pelas necessidades dessa natureza exuberante, custa um esforço corporal que nos leva ao limite. "Eu não vou aguentar!" "Eu tenho que aguentar!". 

O que fazemos enquanto aguentamos?