segunda-feira, 28 de abril de 2014

O corvo e os pombos: notas de um clichê

O corvo é solitário. Espreita os pombos, olhando por cima, na pose de rei. Sabe que está sendo observado. Vira-se para o outro lado, como se quisesse claramente ignorá-los. O corvo se camufla, esconde-se sem querer esconder-se. Voa ao largo bem na frente do bando ignorado. Bando de pombos medrosos, abrigando-se da chuva. O corvo não. Ele não teme água, ele nã teme um bando. Ele não teme nada. Ele é feio, ele é destemido, e não tem nada a perder.

Os poucos olhares que se movem na direção do corvo o fazem orgulhoso o bastante para não tremer diante de sua solidão. O corvo não sabe ser em bando, e não sabe ser completamente sozinho. Abriga-se acima do bando, ao mesmo tempo, ignorando-o. Mas, ali está, o discreto pássaro-rei observando aqueles que sofrem do medo da chuva. Ele observa o medo daqueles que tem algo a perder. Os pombos, esses coitados, não sabem o que fariam se perdessem sua família.

Da minha janela, vejo o clichê. Da minha vida melancólica pós-moderna, senti pena da cena. Pobres coitados, corvo e pombos que não conhecem o caminho do meio.