sábado, 7 de junho de 2014

Nunca fomos modernos, mas continuamos a tentar

Nunca fez tanto sentido pra mim essa afirmação de Latour, e agora, consigo associá-la diretamente com a famosa frase de Freud: "o homem não é senhor de sua própria casa". Freud sabia que o projeto da modernidade era inacessível, mas continuou tentando. A psicanálise assim o fez. A psicologia, de maneira geral, continuou tentando. Atualmente, quando escuto atentamente as gravações das minhas entrevistas e dos diários das mães que entrevistei para a pesquisa, essa nuance do saber-poder-controlar e a frustração que se segue, cada vez mais certa, com a idade da criança, é muito presente. Tenho encontrado discursos atravessados por esse projeto da modernidade, mais especificamente direcionado às mães. Elas consomem recomendações, normas, e tentam incorporá-las em seus hábitos, com aquela conhecida sensação de onipotência, que vira, de repente, como num choque, ou gradualmente, como uma melancolia que se instaura sorrateiramente, em culpabilização. O projeto da maternidade contemporânea nada mais é do que a incorporação de um projeto moderno - nunca plenamente realizado.

Eu fico triste, sinceramente, como mãe, mulher e psicológica, ao ver que a epistemologia da complexidade, do imprevisível, da diversidade, não tem encontrado muitos ouvidos e ecos entre as mães que tenho entrevistado. A sensação (a vontade) de tudo saber e tudo controlar é mais forte. É mais forte a vontade de dominar esse evento que, dizem, deve mudar definitivamente o curso da nossa história, que deve dar sentido à nossa existência como mulheres e como pessoas. A grande narrativa - que alguns chamariam de arquétipo - da maternidade é tão forte que captura as tentativas de escapatória. Mas, não acredito que essa captura seja permanente ou dominante. Há momentos lindos de tomada de consciência, aquela mesma que a psicanálise teve como princípio básico: não podemos controlar o destino, nem da vida que geramos. Podemos criar sentidos, mas eles podem não responder às perguntas que nossos filhos farão. E que bom, que façam! Que façam suas perguntas! Que tenham suas próprias dores para curar! Que tenham seus próprios erros, frustrações, desafios. E quem sabe, um dia, nos ajudem a desconstruir essa mania moderna de explicar as relações causais entre tudo o que vemos, sentimos e fazemos.