domingo, 20 de julho de 2014

Desvendando um enigma

Terminei de ler o conto "Tell me a riddle" de Tillie Olsen, escritora dos anos 1970 que conheci recentemente. Depois de ler o conto, impactada, emendei no ensaio "Silences in literature", no mesmo livro. Depois de um domingo de serviços domésticos, de encarar a minha própria estranheza frente à vida doméstica, e de encarar a ambivalência do meu marido frente a essa estranheza, depois de perder tempo vendo "Desperates Housewives na tv" e ganhar alguns minutos de autoconsolo, tirei forças para ler. Resolvi me recolher a uma solidão menos enfadonha, e consegui ler Tillie. 

Há semanas tenho sentido aquela necessidade que conheço bem, de escrever. Um projeto que já não é mais novo, para o qual comprei uma caixa preta - simbólica e concreta - na qual venho juntando pedaços de histórias que alimentam aquilo que quero contar. Mas, mesmo nesses momentos de raiva e solidão não enfadonha, não consigo me permitir recomeçar o tal projeto. Algo me impede de depositar esperanças nele. Não tem a ver com publicação. Não. Tem a ver com uma necessidade fundamental, uma que conheço bem, desde sempre, acho. Uma que me leva simplesmente a escrever o que TENHO que escrever, com o compromisso de dentro e não de fora.  

E eu li Tillie Olsen. E uma faca de dois gumes, inescapável, me atingiu.

Não é por acaso que perco tempo reivindicando a minha casa como meu espaço doméstico por direito. É por não conseguir abrir mão dessa responsabilidade sem, por outro lado, reconhecer o preço que ela me cobra. O preço do tempo, do cansaço físico, mental. Do cansaço em não ter ao menos reconhecida a minha capacidade de me importar com a minha casa limpa, herdada do hábito de limpar banheiros, cozinha, quartos, louça, roupas, e evitar ao máximo fazer a comida, que minha mãe me ensinou. Então eu discuti ferozmente com meu marido, quando ele, que nunca tinha pego numa vassoura antes de se casar, quis rebater os meus métodos de limpeza conclamando os métodos da empregada da casa de sua mãe, mulher que ele viu trabalhar por mais de quinze anos. E a minha raiva, necessária para me tirar dessa zona de silenciamento criativo, da qual Olsen fala brilhantemente com uma tristeza implacável, juntou-se à raiva dessa mulher imaginária que eu vi meu marido testemunhar por longos anos a acariciar um chão limpo com um pano úmido uma a duas vezes por dia. "Quem é ele para dizer como o chão da minha casa deve ser limpo?!"

E assim, como Olsen reclama em seu ensaio, sobre o ato de criação próprio da maternidade: "é a distração, não a meditação, que se torna habitual; a interrupção, não a continuidade...", se eu não posso ao menos sustentar o hábito de decidir como limpar o chão da minha casa, ainda que eu tenha o companheiro mais disponível do mundo, ainda que ele tenha não só pego muitas vezes na vassoura como aprendido a cozinhar brilhantemente, fazendo que seja ainda mais fácil me esquivar dessa tarefa, sinto-me perdida. Eu ainda preciso me sentir "dona", responsável legítima, do mundo doméstico do meu mundo. Ainda que a responsabilidade de escrever o que TENHO que escrever se choque contra esse papel por causa da falta de tempo.

Desconstruir o silencio habitual da voz feminina (e mais ainda da voz materna) na literatura não é trabalho para uma escritora só. Me deixa! Uma escritora pode conseguir fugir do barulho externo e interno, atravessando o oceano, indo viver num mundo com outras linguagens, mas ela foi feita pra cuidar, e colocar o cuidado dos outros (incluindo a limpeza da casa) em primeiro lugar. Ela foi feita pelas circunstâncias de sua história pessoal e das heranças da história social à se importar com uma disputa ao título de "dona(o) da casa". Ela deve (e está a fazer) aprender como escrever suas tramas por entre a ambivalência dessa relação com o mundo doméstico... (E em algum momento, deverá dar conta das ambivalências do mundo literário, se não quiser passar pelo silêncio mortífero do qual Olsen falou limpidamente).